Viggo longe do padrão

A grande quantidade de falas desafia o ator em Um Método Perigoso

PEDRO CAIADO, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h09

Enquanto aguardamos pelo ator na porta de um quarto de hotel, no Soho londrino, ouvimos uma voz falando ao telefone, em espanhol fluente. Quando Viggo Mortensen abre a porta para nos receber, a sensação imediata foi: "Seria este o Aragorn de Senhor dos Anéis?". O ator americano de 53 anos pouco lembra seus marcantes personagens da tela grande. Talvez seja pelo seu estilo descontraído, que revela uma imagem longe dos padrões hollywoodianos. Viggo recebeu o Estado segurando uma cuia de chimarrão e logo revelou sua paixão por futebol. "Meu time favorito no Brasil é o Flamengo", garante.

Criado na Argentina até os 11 anos, antes de se mudar para Nova York, demonstra rapidamente por que também é conhecido por seu ativismo político. "Antes de você entrar, eu dizia a uma jornalista argentina que o problema da violência no futebol no país dela ainda é grave. O governo não tem vontade de resolver a questão que se arrasta por anos", censura ele.

Depois, em bate-papo descontraído, o ator de origem dinamarquesa explicou por que resolveu aceitar o papel de Sigmund Freud no seu novo filme, Um Método Perigoso, que deve estrear no Brasil dia 27 de abril. "Foi por causa do excesso de diálogos", diz. "Geralmente não faço filmes que envolvam roteiros com tantos diálogos. Os papéis que me são dados demandam mais expressão corporal do que verbal, então foi algo novo para mim. E como ator eu adorei", garante em tom calmo, enquanto posicionava uma almofada para se deitar em seu sofá. "Você quer chimarrão?", ele me oferece e eu aceito meio sem graça.

Um Método Perigoso é o terceiro trabalho do ator em parceria com o diretor David Cronenberg - após Marcas da Violência e Senhores do Crime. Trata-se de uma adaptação do livro de John Kerr, de 1993, e revê a relação turbulenta entre Freud, Carl Jung (Michael Fassbender) e Sabina Spielrein (Keira Knightley), inicialmente uma paciente e amante de Jung que, mais tarde, se tornaria uma das primeiras mulheres psicanalistas.

"Eu tinha bastante informações sobre Carl Jung, mas apesar de já ter ouvido falar de Sabina, nunca tinha ouvido nada sobre seus trabalhos. Foi muito interessante saber que Freud e Jung pegaram emprestado ideias dela. Não era comum uma mulher naquela época ganhar o respeito de colegas homens na profissão", revela, intrigado.

Quando indagado sobre o que o atrai no diretor canadense mais conhecido pelo bizarro longa A Mosca (1986), ele e rápido na resposta: "Eu gosto de estar relaxado e, por isso, gosto de trabalhar com o David. Ele é brincalhão no set. Tem um ótimo senso de humor. Nunca grita com os atores. Ele pede de uma maneira gentil". Qualidades parecidas com as de outro cineasta, segundo Mortensen: o brasileiro Walter Salles. O ator trabalhou recentemente com o diretor de Diários de Motocicleta na adaptação do livro On The Road, de Jack Kerouac, para o cinema. "Eu gostei dele. Walter é bem calmo, parecido com Cronenberg. O set era tranquilo e positivo com uma atmosfera otimista", recorda o ator que já esteve no Brasil para participar de um festival de cinema. "A diferença é que Salles gosta de ensaiar bastante e trabalhar com improvisações, enquanto Cronenberg espera que todos estejam bem preparados e tenham o roteiro ensaiado", comenta.

Na Estrada (On The Road), previsto para entrar em cartaz no Brasil em 8 de junho, traz no elenco a jovem atriz Kristen Stewart (de Crepúsculo). "Meu personagem naquele filme é Bull Lee e baseado no escritor americano William Burroughs. Um cara muito inteligente, controverso e também antissocial de alguma maneira. Um indivíduo complicado. De certo modo, parecido com Freud, pois ele era um pouco mais velho que os seus contemporâneos e tido como um mentor para seus colegas mais jovens", diz ele.

Viggo é conhecido por ser um ator metódico em cena. Como foi, então, o processo de preparação para viver um personagem tao icônico? "Eu pesquisei fotografias para ver como Freud se portava, desde quando ele era mais novo. Achei também muitas descrições sobre ele, de como falava ou olhava para as pessoas, antes de ficar doente. Em minhas pesquisas também descobri que Freud tinha um senso de humor sutil, algo que me ajudou com os diálogos extensos", lembra. "Eu não queria fazer um Freud chato e acadêmico, mas irônico e com humor." Durante o filme, chama a atenção a habilidade do ator de falar e fumar charutos ao mesmo tempo. Seria talento nato? "Não. Foi praticando mesmo", confessa em raro sorriso durante meia hora de entrevista.

Desde O Senhor dos Anéis, o ator tem recebido ofertas de vários papéis em grandes filmes, muitos deles recusados. "As histórias não me interessavam." Dinheiro também não é seu foco. A maior parte do que ganhou, ele doou. Outra parte, o ajudou a fundar a Perceval Press, uma editora que ajuda autores não comerciais a lançarem seus livros, incluindo ele próprio.

Mortensen é autor de quase 20 livros, sobre assuntos que variam de poemas a fotografias. Será que gostaria de ter atingido a fama mais novo? Ele tinha mais de 40 anos quando estourou em O Senhor dos Anéis. "Acho que se tivesse conseguido um dos papéis para os quais fiz dezenas de testes quando era jovem, eu certamente teria ficado entediado com a máquina por trás desse sistema", confessa.

O ator, que hoje vive na Espanha, encerrou uma bem-sucedida temporada nos palcos de Madri com a peca Purgatório, sua primeira em 20 anos. "As pessoas falam sobre a diferença entre teatro e cinema, mas eu gosto dos dois mundos, que acho bem parecidos. Boa e verdadeira atuação é a mesma nos dois ambientes. Foi uma ótima e desafiadora experiência, pois eu tinha de permanecer no palco por quase uma hora sem sair de cena, algo muito diferente do cinema. No teatro, as pessoas ao seu redor ficam de olho em tudo o que você faz, enquanto no set de um filme elas estão mais ocupadas com o áudio ou coisas da gravação", avalia o ator que também é autor, músico, fotógrafo e pintor - ele até cantou uma das músicas da trilha de O Senhor dos Anéis.

A entrevista vai chegando ao fim assim que a assessora avisa que esta seria a última pergunta. Sobre The Hobbit (sequência anterior à história de Senhor dos Anéis), será que ele gostaria de ter feito parte do elenco? "Claro, mas, infelizmente, Aragorn não está nesta história. Adoraria fazer. Adorei a Nova Zelândia e foi divertido viver lá durante as filmagens de O Senhor dos Anéis. Talvez eu tivesse ficado por lá se o meu filho não estivesse mais no colégio. A vida nos leva para caminhos diferentes e nunca sabemos o que vai acontecer."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.