Viés moralista por trás de aparente liberalidade

Que tipo de programa é assistir a Bruna Surfistinha? É o que deve estar se perguntando o espectador, curioso com essa adaptação do livro O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco, a Surfistinha da vida real. Quem a dirige é o estreante Marcus Baldini, atuante, até agora, no mercado publicitário.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Como até os postes de iluminação do Baixo Augusta sabem, Bruna Surfistinha é o nom de guerre da garota de classe média que deixa a casa dos pais para, literalmente, fazer a vida. A certa altura, resolve contar suas experiências num blog que, como se sabe, bombou. E bombou talvez pela capacidade narrativa da blogueira, ou, mais provável, pela curiosidade despertada por um diário ilustrado da profissional do sexo. A internet era também usada para marcar os programas, e o uso esperto da web fez de Bruna a prostituta mais famosa do País, como sua personagem, defendida por Deborah Secco, diz, alto e bom som, a certa altura do campeonato.

O problema de Bruna Surfistinha, o filme, é ficar entre duas exigências contraditórias. Pela natureza da história, não tinha sentido fazê-la de maneira pudica. De modo que inclui muitas cenas de sexo, embora nenhuma explícita. É sexo, digamos, "artístico". De outra, não poderia passar da censura até 16 anos, pois excluiria o público adolescente que, julga-se, é o que decide o sucesso ou fracasso de uma produção. Além de economizar no sexo visual, a história teria de se prevenir de ser julgada apologia da prostituição. Assim, encerra viés moralista em sua aparente liberalidade.

De que maneira? A trajetória de Bruna é descrita, de forma meio arrítmica, segundo suas fases clássicas: iniciação, sucesso, apogeu, desregramentos e declínio. Depois, balanço de vida e ponto de equilíbrio final, com a volta ao redil da normalidade e da monogamia. É o repouso da guerreira, por assim dizer. No fundo, a trajetória da Surfistinha não difere muito da de um pop star ou de um jogador de futebol. O esquema, pelo menos, é o mesmo. E também ela se enquadra no mesmo sistema das celebridades contemporâneas, sem vida privada e turbinadas pela superexposição na web.

Daí se vê o potencial que teria uma história dessa natureza, não fosse a opção de torná-la superficial como um pires. É um filme que se quer explicitamente comercial, como, aliás, andaram dizendo seus responsáveis em quantas entrevistas dessem. Isso significa que precisavam se ajustar à média suposta de inteligibilidade juvenil, que não tolera qualquer esforço de compreensão, ambiguidades, ou arestas morais. Mesmo assim, Bruna Surfistinha não é mau filme. Poderia ser bem melhor, caso tivesse alguma ambição além do faturamento.

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