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Viena com Morelos

Meses após morar 10 semanas em NY, Trotsky ajudaria a mudar a história do mundo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 03h00

Foi entre as ruas Viena e Morelos que Trotski morou a maior parte de seu exílio na Cidade do México, entre 1937 e 1940. Quando tentei visitar seu bunker pela primeira vez, na década de 1970, foi esse o endereço que dei ao taxista que me levou até o bairro de Coyoacán, onde a mítica casa fica, oficialmente, na Avenida Rio Churubusco, 140. Abandonada, fechada, as janelas lacradas, o telhado infestado de mato, só deu para apreciá-la e fotografá-la por fora. 

Declarada monumento histórico em 1982, restaurada e transformada, oito anos mais tarde, em museu e sede do Instituto do Direito de Asilo, consegui enfim visitá-la em 2007. Àquela altura já desistira de escrever Viena com Morelos, um conto ou uma novela contrafactual em torno de Trotski e sua temporada mexicana, a partir dos apuros de um brasileiro fissurado no “profeta banido”, que decidia especular sobre os rumos que a União Soviética e o mundo teriam tomado caso Stalin tivesse perdido a parada. Para Trotski, não para Hitler, que derrotou fragorosamente.

Teria sido Trotski um tirano semelhante a Stalin? Teria ele patrocinado os seus próprios “processos de Moscou” ou crime similar contra desafetos e dissidentes do regime? A direita acredita que sim. Qual Sérgio Moro, sem provas, por mera convicção. 

Se seguisse por aí, com Trotski sucedendo a Lenin e tocando adiante a revolução bolchevique, dentro de uma perspectiva internacionalista, pouco importa se a ferro e fogo ou mais na maciota, como poderia levá-lo ao México? Além do mais, exilado. 

Afinal desisti da mirada contrafactual, mas não do México, nem do romance dele com Frida Kahlo, praticamente desprezado por seu maior biógrafo, Isaac Deutscher, e ignorado por completo no filme de Joseph Losey, O Assassinato de Trotski, em que Richard Burton, maldade do Paulo Francis, “mais parecia um executivo em férias”. 

Aprendi mais sobre aquele interlúdio amoroso e outras miudezas do cotidiano mexicano de Liev Davidovich Bronstein lendo o francês Alan Dugrand, que em Trotski, Mexico 1937-1940 (Payot, 1988) nos leva até o apartamento de Cristina, irmã de Frida, na calle Aguayo, também em Coyoacán, onde o casal teria transado pela primeira vez cinco meses depois de se conhecer no Porto de Tampico. 

Inflexível, disciplinadíssimo, hipertenso e hipocondríaco, Trotski adorava mexer com terra e plantas (cactos “viejitos”, os seus favoritos), passear pelo Desierto de los Leones com a mulher, Natália Sedova, cuidar de coelhos e galinhas – polemizar e escrever. Fui até o lago de Pátzcuaro sentir o cenário em que ele e André Breton passaram um fim de semana discutindo política e estética literária e combinando um manifesto com escritores e artistas revolucionários. 

Pensei em acompanhar com fidelidade a narrativa histórica, com um curto flashback até a Nova York de 1917, onde Trotski agitou entre janeiro e março, para em seguida voltar à Rússia e levar às últimas consequências a Revolução de 1905. 

No desfecho de Viena com Morelos, um gimmick contrafactual: Trotski não mais morria pelas mãos de Ramón Mercader, a mando de Stalin, mas atacado pelo filho de um marinheiro fuzilado em Kronstadt, 19 anos antes. O histórico assassinato fora mais um ato de vingança do que um crime político. 

Kronstadt abrigava uma importante fortaleza naval, tradicionalmente pronta para explosões de rebeldia. Seus marinheiros participaram do levante contra o czarismo, em 1823, e das revoluções de 1905 e 1917, a bordo do legendário cruzador Aurora. Trotski era um deus para eles. Em 1921 se amotinaram. Reivindicavam mais comida e mais liberdade. Os bolcheviques pediram que suspendessem o motim. Mais liberdade naquele momento arruinaria a revolução, alegavam os novos donos do poder, cuja lógica absolutista os marinheiros não aceitaram. Trotski, Comissário da Guerra, encarregou o general Tukhachevski de massacrá-los. Os sobreviventes foram fuzilados.

O episódio de Kronstadt acompanhou Trotski como um fantasma pela vida afora. No filme de Losey, Burton transferiu-a, numa fala, para 1923. Não é o único anacronismo do filme. Quase ao final, numa panorâmica sobre o parque de Chapultepec, ouve-se a guarânia Recuerdos de Ypacaraí, que, além de paraguaia, só seria composta nove anos depois da morte de Trotski.

O flashback nova-iorquino serviria para mostrar as fortes relações do líder comunista com a elite cultural americana e desmentir a lenda de que, antes de levar os bolcheviques ao poder, Trotski fizera figuração num filme intitulado My Official Wife. Existe pelo menos uma foto da tal cena, rodada em 1914, provavelmente no Queens, com ele rindo ao lado da atriz Clara Kimball Young. O figurante é a cara de Trotski, mas o verdadeiro agitador só visitaria Nova York três anos mais tarde, às vésperas da entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial, contra a qual, aliás, gastou muito do seu latim, inutilmente.

Seus guarda-costas no México eram quase todos voluntários americanos, assim como seu advogado, Albert Goldman, de Chicago, e seu “embaixador” informal, George Novack, secretário do Comitê de Defesa criado nos Estados Unidos para protegê-lo e desmoralizar a impostura da máquina de propaganda stalinista, que o satanizava como “traidor da pátria”, espião de Hitler e do Mikado. 

Nas 10 semanas em que morou em Nova York, Trotski escreveu pilhas de artigos, palestrou para intelectuais e operários, editou um jornal e andou muito de metrô. Imagine ele sentadinho no trem que liga o Bronx a Manhattan, a ler um livro como um passageiro qualquer. Como um judeu-russo qualquer. Mas que dali a oito, nove meses ajudaria a mudar a história do mundo. 

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