Videoarte ocupa casarão em SP

Apesar de reunir apenas quatro trabalhos, a exposição In Situ é um evento grandioso, que toma de assalto um espaço importante do casarão da década de 50 que normalmente abriga os estúdios e a produtora CineCinematográfica. Dentre os principais diferenciais entre essamostra e as outras exposições de videoarte que ocorrem - cadavez com maior freqüência - na cidade está o fato de que todas asobras foram concebidas a partir de um espaço preciso e que esseespaço foge do tradicional e estéril cubo branco.Afinal, qual é o mérito em se fazer um "site specific"(termo hermético e anglófilo do jargão contemporâneo usado paradefinir as instalações feitas in loco, pensadas especialmentepara o espaço que as abriga) para uma sala de museu que pode serigual a tantas outras?Os quatro trabalhos presentes na mostra foramselecionados por uma dupla curadoria, assinada por Ivana Bentese Evangelina Seiler. Mas pode-se dizer que os convidados tiveramampla liberdade de ação, criando diálogos interessantes entre oambiente e suas poéticas pessoais.A integração mais evidente fica por conta deTríptico, uma "videoescultura", apresentada por GabrielaGreeb. Vinda do campo do cinema, a artista - que realiza agorasua primeira exposição - criou uma obra visual e sonora no meiodo jardim da produtora, que mais parece um quadro vivo, feito detransparências. Tudo na obra é translúcido: o vidro sobre o qualas imagens são projetadas, a água que enche diferentesrecipientes de maneira contínua e a própria película sobre asquais as imagens foram filmadas. Imerso no verde do jardim, otrabalho tem uma forte aura mística. "É como se fosse um mantravisual", define Evangelina.A instalação criada por Jurandir Müller & Kiko Goifman eexibida no grande salão da casa também lida com a questão da luzenquanto elemento central de constituição da imagem em movimento, quer por meio da transparência que costuma ser associada àidéia de projeção, quer explorando com grande maestria osefeitos do reflexo dessa luz sobre superfícies espelhadas.Usando imagens cedidas por outras pessoas, que contam históriasdesconhecidas e costuradas ao acaso (ao qual poderão serassociadas fotos enviadas via web pelos espectadores quequiserem com o trabalho), eles criam um ambiente de confusãovisual, em que as referências virtuais são tantas que perdemos ochão - ironicamente, aliás, o único ponto de referência que nosresta é o luxuoso lustre de cristais que pende no centro dasala.O mineiro Cao Guimarães é o único representado com duasobras. Inicialmente ele iria mostrar apenas seu Inventário deRaivinhas, uma seleção de imagens que lembram coisasirritantes do nosso dia-a-dia, como o barulho do ar escapando dagarrafa térmica, a impossibilidade de se enfiar uma linha naagulha ou a aflição dos fiapos de manga entre os dentes, e quesão projetadas em diferentes locais da casa - na entrada,embaixo da escada, sobre uma porta (no caso, a "raivinha"refere-se a uma chave que não funciona direito).Mas ao conhecer o espaço da exposição lhe veio à menteum material inacabado sobre uma ação desenvolvida em parceriacom sua mulher Rivane Neuenschwander, em Estocolmo, e que casariaperfeitamente com a bela biblioteca existente no casarão. Emagosto de 2000, os dois retalharam em pedacinhos um mapa-múndi edistribuíram esses pequenos recortes em livros selecionadosaleatoriamente na biblioteca municipal da Suécia.Cao editou os registros dessa performance associando-osa imagens em super-8 feitas na mesma viagem - mas que muitasvezes parecem pertencer a lugares e tempos pouco definidos -criando uma provocação poética de toque surreal, propondo comono caso das Raivinhas pequenos curto-circuitos que sublinham demaneira bem-humorada os absurdos e contradições da vida moderna.E que podem ser resumidos na frase de Camus que ele elegeu comouma espécie de epígrafe para o projeto Volta ao Mundo emAlgumas Páginas: "O acaso é o deus da razão."In Situ - Arte e Tecnologia. De terça a sábado, das 12 às 21horas. Instituto Cine Cultural. Av. Rebouças, 3.507, tel. (11)3819-1666. Até 22/12. Inauguração amanhã, às 20h, paraconvidados.

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