Vidas na névoa do apocalipse

Disney Killer, de Philip Ridley, arma uma espécie de fábula psicanalítica sobre "o mundo em que vivemos"

O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2011 | 03h08

O céu está sempre escuro em Disney Killer, de Philip Ridley. Essa imagem é importante no desenvolvimento da peça. Os melancólicos e contínuos dias de mau tempo das Ilhas Britânicas, e de todo Mar do Norte, são propícios à lareira com uísque para quem pode, e cerveja aos litros em bares saturados de fumaça, o que muitas vezes acaba em violência nas ruas como válvula de escape das frustrações proletárias e juvenis, embora - claro - a Inglaterra também seja adorável. Basta não chover e abrir uma mínima luminosidade no céu e o país inteiro desanda a comentar: "It's a lovely day". Os ingleses são céticos e irônicos o suficiente para brincar com a situação. A ambientação claustrofóbica, fria e úmida (mesmo nos prados verdejantes e ilhas de costas ásperas) é farta matéria de ficção.

O que Philip Ridley insinua em Disney Killer (The Pitchfork Disney no original), o seu conterrâneo William Golding (entre muitos outros) já prenunciou em O Deus das Moscas, obra que lhe abriu a porta do Prêmio Nobel (1983), rendeu dois filmes e até uma música da banda de rock pesado Iron Maiden. Há, portanto, tradição artística nessas paragens em retratar a trajetória humana pelo ângulo dos conflitos de classe com misturas psicológicas e a crise existencial numa bruma de loucura. Terreno propício às obras de sátira ou denúncia social e previsões apocalípticas sobre o comportamento das pessoas. Filósofos e sociólogos cuidam do tema com a exatidão possível, mas há igualmente todo o setor subjetivo, de Charles Dickens, no passado, ao romance futurista Laranja Mecânica, de Anthony Burges e sua versão cinematográfica. Ridley tenta o mesmo caminho.

No enredo, um homem e uma mulher, irmãos gêmeos, vivem em um cortiço infestado de baratas e só fazem devorar chocolate e soníferos, escondidos de algo que insinua destruição nuclear. Se o mundo acabou lá fora, ambos são os sobreviventes entregues a ritos infantilizados e cruéis de poder e sedução de parte a parte. O pesadelo se amplia quando surge um inesperado personagem de casaca vermelha de shows, acompanhado pelo assistente com jeito de fera mascarada. Resumido assim pode não ser estimulante, mas como bom manipulador de imagens, Ridley arma uma espécie de fábula psicanalítica sobre "o mundo em que vivemos". Tudo porém pode ser visto apenas como um jogo de horror grotesco (o que no cinema tem legiões de aficionados). São possibilidades compatíveis.

O diretor e intérprete Darson Ribeiro, no entanto, espera que o espectador pressinta no texto uma incursão aos medos individuais e coletivos. Por exemplo: solidão, desamor, velhice, decadência física, sexo frustrado, a lista é imensa. Ao mesmo tempo, acredita mostrar medos falsos, assombrações do inconsciente. Que o maior e verdadeiro temor é o de errar e para tanto cita William Shakespeare: "O maior erro que você pode cometer é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum".

Disney Killer é envolvente na ambientação (cenário, iluminação, figurinos, efeitos especiais) e no desempenho do elenco. Imagine-se paredes e janelas de masmorra: estão lá; personagens com roupas de mendigo: idem. Um sorridente e mefistofélico estranho com um truque com insetos (e se não for truque?). Darson Ribeiro sonhou a montagem como pacificação de fantasias pessoais e nada inglesas. Ao contrário, nascidas no pó vermelho da sua infância no Paraná. Ele se entrega ao desamparo e alucinação do personagem. Samantha Dalsoglio tem o mesmo empenho na irmã chocólatra e anoréxica (poderia gritar menos. Grito em teatro é problemático) e Felipe Folgosi encarna o cinismo ameaçador do showman-metáfora da sobrevivência das baratas. Alexandre Tigano resolve dramaticamente bem a episódica figura do homem monstro.

Disney Killer é um teatro que parece se firmar aos poucos por aqui. Arauto do caos urbano e desalento das pessoas. Trombeta exagerada de hecatombes. Se as ideologias estão em crise, jovens morrem e matam espatifando automóveis, então, sim o que se vê no palco tem algum sentido. É o medo da morte ou o fascínio por ela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.