Vidas frágeis no exílio

Histórias de Paris reúne contos de Mario Benedetti marcados por incertezas

O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2013 | 02h10

UBIRATAN BRASIL

O exílio, especialmente o involuntário, provoca não apenas uma sensação de vazio como incita a refletir sobre as relações familiares, o futuro do trabalho e do país que está distante. A literatura surge, assim, como um possibilidade de alívio, mostrando ser possível, por meio das letras, confrontar a adversidade e se opor a ela.

O escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009) foi um dos que precisaram deixar seu país por 20 anos por se opor ao regime militar. Foi nesse período que escreveu as narrativas que formam o volume Histórias de Paris, publicado agora pela editora Globo por meio de seu selo Biblioteca Azul. Trata-se da compilação de contos publicados em três obras de Benedetti: Cinco Anos de Vida consta no livro de relatos A Morte e Outras Surpresas (1968); O Hotelzinho da Rue Blomet está em Com e Sem Nostalgia (1977): e, finalmente, Geografias e Só por Distração figuram no livro Geografias (1984). São narrativas marcadas pela inevitável melancolia, mas não é o tom dominante - mesmo a distância, Benedetti confirmava sua posição de grande observador, cujos textos traduzem a decadência do Uruguai, com retratos bem elaborados da classe média, em especial dos burocratas, sem tentar esconder seu comprometimento com movimentos esquerdistas.

Basta ler o último conto da seleção, Só por Distração. Conta a história do sujeito que optou por um exílio voluntário depois de ver mendigos na rua, de se surpreender com a vibração da pálpebra de um ministro após dizer a palavra "paz" e de acompanhar, espantado, o choro do Cristo da igreja de seu bairro. O homem decide então perambular pelo mundo, sem se preocupar com o trajeto - descobria onde estava pelas características do lugar. Até chegar ao setor de imigração de um país, onde, ao ser identificado, ele é levado para uma sala e encapuzado. "Foi então que percebeu que, só por distração, estava de novo na sua pátria", finaliza o texto, de forma agridoce.

Textos curtos escondem grandes verdades. Benedetti sempre foi econômico. Em poucos parágrafos, resumia o paradoxo do continente latino, povoado de fantasmas que se comunicam com outros fantasmas, vítimas da própria ideologia. Histórias de Paris revela vidas incertas, marcadas por dúvidas e falta de concretudes. Um curioso contraponto aparece nas ilustrações do argentino Antonio Seguí, cujos traços debochados e ligeiramente exagerados trazem luz a histórias muitas vezes opacas.

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