Vidas feitas de silêncio e rupturas

Em Uma Arqueologia da Memória Social, José de Souza Martins entrega as chaves da compreensão de um mundo que funde tradições além-mar, cultura caipira e o duro encontro com a racionalidade da fábrica, no ABC paulista

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Pode haver literatura na sociologia? A indagação não é nova, nem tampouco superada, mas José de Souza Martins toma partido: pode, deve haver. Um dos mais eminentes sociólogos da Universidade de São Paulo, que em 2008 lhe concedeu o título de professor emérito, ele não vacila ao admitir que em seus livros e artigos para a imprensa desenvolveu, sim, um estilo literário, fortemente influenciado por mestres que o antecederam na negação da sociologia relatorial e cientificista. Mestres como o belga Claude Lévi-Strauss, que introduziu a cadeira na jovem USP dos anos 30, substituído depois pelo francês Roger Bastide, para Martins "a figura maior da sociologia uspiana", que por sua vez ampliaria a linhagem com nomes como Florestan Fernandes, Antonio Candido, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso. Martins ainda convoca grifes de fora - o americano Charles Wright Mills e o austríaco Alfred Schütz - ao respaldar a opção bastidiana por um pensamento sociológico aberto, não arredio à imaginação e ao poético, mais próximo das pessoas. Em suma, literário.

É esse pensamento que permeia as 464 páginas de Uma Arqueologia da Memória Social, livro lançado e autografado esta semana, com um desafio no intertítulo: Autobiografia de Um Moleque de Fábrica. Trata-se de obra de memórias que se dispõe a entregar, a partir do relato de vida do autor, as chaves da compreensão de uma certa realidade social, vivida por uma camada da população, num determinado momento histórico. O período percorrido abrange da infância do autor, nascido em São Paulo, em 1938, até o desaparecimento de Vargas nos anos 50, numa coleta de histórias e personagens recortados de sagas de imigrante e do cotidiano do operariado paulista, num tempo de expansão da indústria. Em entrevista ao Sabático sobre o livro, Martins confessa ter hesitado em publicar este trabalho, fruto de longos anos de pesquisa:

"Um amigo chegou a me dizer "você não é ilustre, não inventou coisa alguma, por que contar sua história?". No Brasil não temos a tradição do livro de memórias de quem não é ilustre, nem figurão, tanto que o livro de Ecléa Bosi, "Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos" (de 1979), um trabalho muito importante, a meu ver, veio na contramão disso tudo. Também pensei no americano Oscar Lewis, seguramente o maior nome da antropologia da pobreza, autor de clássicos como "As Cinco Famílias", "Os Filhos de Sánchez", "Pedro Martínez". Pesei também o incentivo das filhas, e daí pensei como sociólogo: sou um arquivo de informações sociais e culturais que, se não publicadas, vão se perder. Hora de colocar no papel".

O livro reafirma, página por página, a curiosidade do autor por suas origens, curiosidade latente, desassossegada a ponto de levá-lo para lonjuras com o objetivo de descobrir de onde vieram os avós imigrantes - por parte de pai, portugueses de um povoado antigo chamado Santiago de Figueiró, que chegaram ao Brasil fugindo das convocações militares da 1.ª Guerra; e espanhóis, do lado materno, moradores de uma aldeia à beira do Mediterrâneo, não distante de Gibraltar, "onde em dias claros se divisa a África". Foram atraídos para São Paulo pela promessa de trabalho nas lavouras de café. Os avós portugueses acabariam se fixando em São Caetano, no ABC paulista, e os espanhóis, depois de tentar a vida na Argentina, de regressar à Espanha e então transferir a família para o Brasil, erguem uma casa de pau a pique num sítio no Arriá, bairro de Pinhalzinho (SP). A arqueologia dessas memórias seguiria sem sobressaltos por esses dois veios não fosse um "achado" do autor, em 1979, quando regressava de uma temporada de estudos na Universidade de Cambridge. Ao visitar pela primeira vez Santiago de Figueiró, moradores da aldeia, meio século depois de seus parentes terem deixado o lugar, identificam elos familiares e lhe revelam o maior segredo de sua vida: Martins era neto do sr. Reitor, o padre Manuel Justino Teixeira Carvalho.

"Descobri que minha avó foi mãe solteira, numa relação tida como incestuosa; que a família no Brasil sabia do caso, mas não ousava comentar, afinal, mesmo analfabeta, ela era a matriarca; que se casou com aquele que eu chamava de avô não por amor, mas por conveniência; que Manuel Justino assinou os papéis do casamento dela, assim como havia assinado os papéis de nascimento do meu pai, mas pediu para outro padre ministrar os sacramentos, para não enfrentar o julgamento da paróquia; e que meu pai, ao dizer ao pai-sacerdote que emigraria para o Brasil, ganhou dele um punhado de moedas atiradas ao chão, em sinal de menosprezo. Além do choque, a descoberta me propiciou ouvir pessoas e pesquisar documentos, oportunidade fantástica de compreender o que era aquele familismo aldeão. Também pude testemunhar a transformação de uma região muito pobre que, com o fim do salazarismo e o declínio econômico em que mergulhou, viu parte de sua população emigrar para La Rochelle, na França. Esses portugueses trabalharam muito, enriqueceram e voltaram para a terra natal, onde puderam construir suas belas casas. Estive lá no ano passado e vi como o cemitério de Santiago de Figueiró vem ganhando lápides em francês."

Boa parte do livro brota da observação infantil guardada na memória do autor, observação de um "sujeito" cuja vida facilmente se dilui no cotidiano da casa ou na desimportância da infância, afinal, como se diz com frequência, "criança não tem biografia". São olhos atentos aos modos da gente da roça, pelo lado materno, e do proletariado de subúrbio, pelo lado paterno, com seus corpos extenuados no trabalho, manifestações de afeto contidas, conversas racionadas. "O tempo todo parece que estou escavando silêncios", admite Martins. Paradoxalmente, descobriu que ouviu muito durante a infância. Gravou na cabeça, e transcreveu sem alterações no livro frases inteiras dessas pessoas sem escolaridade, que pouco ou nada liam, mas buscavam pronunciar corretamente o que diziam, seguindo a tradição dos sermões de igreja (em especial, a protestante). Havia a liturgia da palavra bem pronunciada. Quanto à recomposição das histórias do menino observador, retrabalhadas pelo sociólogo em que se converteria, resta a certeza de que as rupturas foram mais efetivas do que os períodos de continuidade.

"Um dia, já rapaz, sentei na frente de Mamá, minha avó materna, e lhe propus o seguinte: "Vamos lembrar". Quem é quem nessa história?, perguntei. Ela sabia muita coisa, recordava idades, datas, assim fui montando uma cronologia que me fez concluir o seguinte: Mamá teve contato com parentes que haviam convivido com pessoas que por sua vez viveram na época da Revolução Francesa. Ou seja, ela puxava memórias que partiam do século 18! Só que Mamá não tinha a visão dos fatos históricos, mas dos acontecimentos familiares. Na aldeia em que nasceu, foi criada desde pequena para servir na casa dos marqueses da Guadalmina, os mais ricos e poderosos do lugar. Então minha avó, que só circulava na área de serviço da casa senhorial, a não ser quando era recrutada como "brinquedo" dos filhos dos patrões, aprendeu palavras em francês que repetiria aqui no Brasil - veja a força de uma ruptura. Um dia ela me disse: "Os marqueses e os reis de Espanha se frequentavam". Ora, desde quando isso é jeito de pobre falar?"

Rupturas fincaram marcos na reconstrução dessa memória familiar e social. Martins perde o pai aos 5 anos, dois a mais que seu único irmão. Reviravolta na vida: a mãe precisou se empregar numa fábrica em São Caetano, deixava os filhos em creches e acabaria se casando com um homem culturalmente diferente dos dois veios familiares. O padrasto, sábio da roça, mas desenraizado na cidade, falava nheengatu adaptado ao português. Para Martins, salta como o grande personagem do livro. Sentia-se tão fora do ninho no subúrbio que passou seguir as recomendações de um manual de feitiçaria, O Verdadeiro Livro de São Cipriano, na tentativa de virar um ente invisível e assim se proteger das forças malignas de um mundo que não era o seu. Martins também escava as vulnerabilidades extremas de um operariado que começava a se constituir em São Paulo rumo ao que seria o apogeu da Vargas, porém ainda marcado pelo ferro quente do atraso social.

São momentos em que repassa as dores das sovas em crianças, o trabalho infantil mal a família divisasse no rebento a possibilidade de ter algum dinheiro a mais em casa, os pés de menino quase sempre descalços, a "fome de carne que não passa". Como é que o autor, protagonista dessas situações, lida sociologicamente com elas?

"Lá em São Caetano, naqueles anos 40, muitas crianças iam descalças para a escola, não era só eu. Iam de uniforme, mas descalças. Famílias economizavam os sapatos porque eles custavam caro. Viúva, minha mãe recebia pensão de 60 cruzeiros por filho, portanto, 120. Que na minha cabeça eu convertia em picolés vendidos a 50 centavos cada um. Mas um sapato custava 100 cruzeiros. Quando meu pai morreu, ela logo destinou a mim o único par de calçados que ele tinha. Esperei meu pé crescer e os usei até furar. Já a "fome de carne" me remete aos anos em que vivemos num sítio em Guaianazes, período muito duro para todos, em que minha mãe saía para trabalhar e meu padrasto fazia a comida da casa. Era sempre arroz, feijão e repolho cru. Uma vez ou outra tínhamos caça, o que me fez odiar para sempre esse tipo de carne. Meus avós trouxeram referências culinárias de Portugal e Espanha, mas a pobreza era tanta que elas se transformaram em comidas rituais, só para datas específicas."

A acomodação ao universo caipira e a socialização discrepante dos imigrantes - como a da própria mãe do autor, filha de espanhóis que não tomava café com medo de "ficar negra", mas cujos pais trabalharam na lavoura estigmatizada pela escravidão - vão constituindo seres culturalmente híbridos, que acabam se defrontando na São Paulo operária com a racionalidade da grande indústria - experiência fascinante, ao mesmo tempo dura demais para quem vinha, como lembra Martins, "do mundo mágico e místico de uma transição inacabada entre campo e cidade". As fábricas, em seu processo de modernização, iriam se tornar uma espécie de Disneylândia dos pobres naqueles bairros do ABC. Neste ponto e a certa altura do livro, o autor faz sua crítica a Marx, pois "ele se esqueceu de que o operário não é unicamente o ser humano no processo produtivo, no interior da fábrica, a extensão da máquina, da produção fragmentada e setorizada. (...)Fora da situação de trabalho, na sua vida cotidiana, os operários dos diferentes setores de uma mesma fábrica conversam entre si. São vizinhos, viajam no mesmo trem ou no mesmo ônibus. Muitas vezes em conversas de botequim a inteireza do processo de trabalho se torna evidente e consciente".

As memórias da fábrica têm a ver com os anos em que o autor trabalhou, ainda jovem, ou "de menor", como se dizia, na Cerâmica São Caetano, indústria modelo que investia na formação de certos empregados - entre eles, Martins - para criar uma geração que pudesse entender a língua dos engenheiros. Pois foi com a ajuda da fábrica que o autor fez os estudos que o levaram à USP e à sociologia. E foi lá que ele presenciou, como descreve neste livro, embora já tendo analisado em outro, uma rebelião de operárias digna do melhor realismo fantástico, motivada pela aparição do demônio na fábrica. Explica-se: quando a empresa iniciou um processo de mudança tecnológica radical, uma divisão de operárias acusou um problema na linha de produção, ou seja, os ladrilhos saíam trincados dos fornos. As cores das peças davam diferença, também. Jamais "aquilo" acontecera. As operárias se estressaram, passaram a ver o demônio num canto da fábrica e, juravam, ele se parecia com os engenheiros! Algumas desmaiavam de pavor. Outras se rebelaram. A solução foi trazer o padre da paróquia para benzer o lugar. O demônio sumiu e os engenheiros acharam o que havia de errado nos fornos. Milagre.

"Como procuro tratar no livro, o conservadorismo proletário é instintivo e autodefensivo. A verdade é que nunca houve uma revolução realmente proletária no mundo, nem mesmo a Revolução Russa. Marx escreveu o que escreveu por inspiração de uma operária analfabeta de origem irlandesa, Mary Burns, que revelou a Engels o mundo opressivo da classe trabalhadora na Inglaterra. Então o proletário de Marx é teórico! Quando atravessa fase boa e estável, o proletariado não quer mudar nada...e mesmo aquele operariado do ABC só se manifestou, na passagem para os anos 80, porque havia grandes transformações em curso nas fábricas, gente sendo substituída por máquina, e eles viram a ameaça aos empregos. Mas, hoje, quem são os carecas do ABC? Quem são esses jovens ultraconservadores? São justamente os filhos dos sindicalistas que fizeram assembleias em Vila Euclides. Até Lula, o operário que foi ao topo do poder, provou que é e sempre foi conservador. Comportou-se na Presidência como na mesa de negociação da empresa."

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