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Lúcia Guimarães
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Vidas Duplas

Hora do rush, na estação de trens Grand Central. A cena há de ter inspirado uma das citações literárias mais conhecidas sobre Nova York – “A cidade que é devorada por gafanhotos a cada dia e cuspida a cada noite.” (E.B.White em Aqui Está Nova York). Gafanhotos que vêm a Manhattan trabalhar e turistas evitam se esbarrar com a destreza de bailarinos. A arte de se manter contido no pouco espaço disponível agora exige mais agilidade porque boa parte dos que caminham rápido está de olhos grudados numa tela.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 02h00

Suponho que o smartphone enriquece ortopedistas. Sou prova disso – uma clínica de raio X e o doutor Gilbert já me aliviaram de centenas de dólares, depois que um e-mail aberto em movimento me colocou em rota de colisão com uma laje de concreto. Numa tarde recente, observei o estranho balé de passos apressados e o apêndice onipresente de fios brancos pendendo das orelhas. 

Confesso que tive uma surpresa ao colher, no enorme saguão da Grand Central, amostras de opinião sobre o apego a gadgets e o número de horas passadas checando e-mails, mensagens e redes sociais. Embora quase todos com quem conversei tenham admitido excessos e alguns se referissem ao smartphone como uma droga, encontrei um sentimento comum entre estudantes e profissionais, pré-adolescentes, jovens adultos e adultos de meia-idade. Todos se diziam vitimados por um mal-estar da civilização digital. Um designer de software disse que teme a ira da mulher se desligar o celular. Uma jovem se confessou mentalmente esgotada. Outros reivindicaram pagamento de hora extra se seus chefes insistem em mandar mensagem e telefonar fora do expediente – isto começa a ser realidade na Alemanha. Mesmo na fase da vida mais subjugada pela convivência em grupo, adolescentes me disseram, suspirando nostálgicas, que aceitariam de bom grado umas férias offline em companhia de boas amigas.

A mídia hoje é voltada para a síndrome conhecida pelas iniciais Fomo – Fear of Missing Out –, o medo de estar perdendo o bonde dos acontecimentos. A expressão foi cunhada há 15 anos num paper por, quem mais?, um estrategista de marketing. A literatura psicopop registra que 70% dos adultos em economias desenvolvidas sofrem angústia por temer passar ao largo de algo relevante. Um problema com esses diagnósticos é que o conceito de relevância foi virado ao avesso na era digital. Hoje, a bunda de Kim Kardashian num selfie quebra a internet. Já o fato de Kim Jong Un ter passado a semana escalando a tensão da Coreia do Norte nuclear com o Sul não emociona nem meu porteiro albanês, cujo pai penou num campo de concentração comunista. Vivemos numa neblina de Kims.

Há algo de melancólico em adolescentes sonhando em se desligar do mundo que mal começam a conhecer. Um terapeuta que não manda e-mail nem frequenta redes sociais oferece alguma luz para os afligidos por Fomo. Adam Phillips é um psicanalista galês que atende pacientes em Londres. Seu décimo sétimo livro é O Que Você É e O Que Você Quer Ser e foi publicado no Brasil. É uma poética coleção de ensaios sobre a vida não vivida, o temor de ter feito escolhas erradas, de ter deixado o tempo passar. Phillips defende a vida imaginada como parte integral da nossa experiência. “Devemos sempre viver a vida dupla”, diz ele, “a que desejamos e a que praticamos.”

O que nos distingue de gafanhotos é a cultura do trabalho, que nos faz sentir especiais, lembra o psicanalista. Eu acrescentaria que a cultura do estímulo constante pelo entretenimento só contribui para o mal-estar, por impor um fardo maior sobre o que significa pertencer ao mundo, o que é ser especial. A frustração não é nossa inimiga, ensina Adam Phillips, mas uma aliada, um estágio do desejo. Os gafanhotos humanos da Grand Central não perdem nada se levantarem os olhos da tela para o teto do mais belo espaço interno público da cidade.

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