Vidas cruzadas em Brasília

Longa de Mauro Giuntini teve seus atores premiados no Recife, em 2008

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h10

Quatro anos podem não ser uma vida, mas são um período grande. Foi preciso tudo isso para que Simples Mortais finalmente chegasse ao circuito nacional. O longa brasiliense de Mauro Giuntini foi feito em 2007, ganhou prêmios importantes no Cine PE do ano seguinte - os Calungas de melhor ator e melhor ator coadjuvante, para Chico Sant'Anna e Eduardo Moraes -, mas só agora, na sexta-feira, estreou em São Paulo.

É o velho problema do cinema brasileiro, polarizado entre tendências opostas - o filme miúra, de arte, e o blockbuster. Um sai pequenino, com poucas cópias, e em geral é massacrado pelo mercado. O outro ganha circuito amplo, atinge o público, mas, com raras exceções, recebe pancadas dos críticos, que o acusam de ser 'descerebrado'. O sucesso de O Palhaço, de Selton Mello - 1,3 milhão de espectadores -, está abrindo um precedente importante, uma terceira via. É pouco provável que, por ela, trafegue o filme de Giuntini. O Palhaço chegou lá porque teve uma distribuidora - a Imagem - que bancou 200 cópias para um filme que, pela lógica de mercado (autoral, delicado), teria, talvez, pouco mais que o número de cópias de Simples Mortais.

Mesmo que, eventualmente, não atinja um grande público, Simples Mortais não pode nem deve ser descartado. O filme tem potencial para dialogar com o público. No Recife, a plateia do Cine-Teatro Guararapes, a maior do Brasil - são mais de 2.000 lugares sentados - foi generosa no aplauso, especialmente na cena que valeu aos atores os seus prêmios. Eles fazem pai e filho. Fumam um baseado e, pela primeira, vencem as barreiras geracionais e conseguem se comunicar.

Cinéfilos de carteirinha devem se lembrar da cena similar em O Selvagem da Motocicleta, Rumble Fish, de Francis Ford Coppola, quando os personagens de Dennis Hooper e Mickey Rourke, também pai e filho, se unem para outro baseado. Representam o encontro da geração da bebida (o pai) com a das drogas (o filho). Depois da observação feita pelo repórter quando o filme passou no Cine PE, o diretor Giuntini decidiu rever a obra cultuada de Coppola. Ele não se lembrava de Rumble Fish e certamente não pensou no filme durante a fase de roteiro e realização de seu filme. "Mas é impressionante como o filme estava enraizado no meu inconsciente. As duas cenas têm tudo ver."

Giuntini, de 46 anos, é docente há mais de dez. Ele conta como é seu processo. "Trabalho muito com improvisação quando ainda estou preparando ou escolhendo os atores. Com o Chico (que faz o pai), já tinha uma relação profissional. Havia filmado com ele. O Eduardo foi meu aluno e foi assim que o conheci. Fui seu orientador, num trabalho de conclusão de curso. A cena dos dois foi uma surpresa para mim. Nos ensaios, ela nunca teve aquela potência. Algo se passou enquanto filmávamos. Dispunha de um ótimo material na montagem."

Simples Mortais conta três histórias que vão se articulando, no formato que os críticos chamam de 'multiplot' e para o qual os norte-americanos têm uma definição muito particular. É um filme 'ônibus'. O mexicano Alejandro González Iñárritu adquiriu notoriedade em anos recentes com seus filmes que narram várias histórias simultâneas, mas não era ele que Giuntini tinha como referência. "Fiquei impactado quando assisti a Short Cuts - Cenas da Vida, de Robert Altman. Foi um filme muito importante para mim. Fortaleceu meu desejo de fazer cinema e contar histórias daquele jeito."

A origem. Desde Nashville, em 1975, Altman sempre gostou de soltar a câmera entre numerosos personagens, uma lição que, conscientemente ou não, talvez tenha absorvido de Luis Buñuel, O Discreto Charme da Burguesia. "Quando fui estudar cinema nos EUA, comecei a pesquisar sobre o assunto. Todo mundo só falava de Iñárritu, mas D.W. Griffith, lá em Intolerância, em 1915, já trabalhava com multiplot." Três histórias - compondo um painel das frustrações dos brasilienses. O professor que não consegue escrever seu livro de poesias, o pai músico que toca em churrascarias para aumentar o faturamento, a jornalista de TV que sonha ter um filho (e o companheiro não quer).

Todas essas histórias se combinam num desfecho em suspenso, dentro de um elevador - e justamente essa metáfora é considerada um tanto banal, enfraquecendo a força do filme cuja melhor parte é justamente a que trata de pai e filho. Giuntini conta que fez o filme com B.O., baixo orçamento. Foram R$ 750 mil de produção, mais R$ 100 mil para o lançamento. Giuntini conversou com duas ou três distribuidoras, mas não fechou nenhum acordo. Como consequência, ele próprio está lançando seu filme, o que explica o atraso e o número reduzido de cópias. Uma em São Paulo, outra no Rio e as demais que já estavam em Brasília (desde 16 de novembro). Cinco, no total.

De quais filmes brasileiros Giuntini gostou, recentemente? Ele cita dois - O Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges (e diz que se trata de um Simples Mortais mais radical) e Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande. Cabe ao público reverter a situação e impedir que Simples Mortais, com seus prêmios no Recife, esteja sendo lançado pro forma, somente para o sacrifício.

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