Vidas alheias

-Belinha, Belinha... A mulher do Caio?

Luís Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h07

- Não, a mulher do Ciro. O do incêndio.

Com um ouvido atento e um pouco de imaginação, qualquer coisa pode virar uma história na sua cabeça. Ou um mergulho nesse poço de surpresas que é a vida alheia. Uma frase. Ou uma conversa. Como esta numa sala de cinema, antes de começar a sessão. Duas mulheres, sentadas atrás de você, conversando.

- O Ciro que pôs fogo na casa?

- Esse. Só que nunca ficou provado que foi ele mesmo. A Belinha é que acusou.

Pronto. Você já tem os ingredientes para uma história. Sua imaginação fornecerá os detalhes. Um casal, Belinha e Ciro, e a suspeita de que o Ciro pôs fogo na casa. Talvez para matar a Belinha.

- Coitada da Belinha. Ficou traumatizada. Ela esperaria qualquer coisa do Ciro. Mas botar fogo na casa foi um pouco demais.

- Imagina! Mas então quem é a mulher do Caio?

- Você está pensando na Carol, aquela que saiu com a cueca manchada do marido na rua, pra mostrar pra todo o mundo.

Epa! A história da Carol e do Caio parece mais interessante do que a da Belinha e do Ciro. Mulher brandindo a cueca manchada do marido para toda a vizinhança saber da sua infidelidade bate incêndio possivelmente criminoso como motivo de briga de casal em qualquer vara de família séria do mundo. Mas a conversa das mulheres volta para o primeiro casal.

- E o que que tem a Belinha?

Você pensa em se virar na poltrona e protestar. Não! Esqueçam a Belinha. Quero saber mais sobre a Carol! A história da Carol é melhor!

- A Belinha descobriu uma colônia de abelhas no portão da casa dela. Como é que se chama? Uma colmeia. Enorme. Da noite para o dia milhares de abelhas tinham se instalado no portão. A Belinha não podia sair ou entrar em casa sem o risco de levar uma ferroada.

- Meu Deus.

- Aí ela ouviu dizer que havia um apicultor que se especializava em retirar colmeias. Pegava as abelhas, empacotava, sei lá como, e levava embora. Ela chama o tal apicultor. E quem é que aparece?

- Quem?

- O Brad Pitt.

- O quê?

- Numa versão rústica, é claro.

Você imagina o encontro. O apicultor examinando a colmeia enquanto Belinha examina o apicultor. O olhar dele para as abelhas é terno, o dela para ele é de súplica e paixão. Leve-me também, apicultor, pensa Belinha. Leve-me junto com as abelhas para a sua cabana tosca onde nos cobriremos de mel e...

- E pintou alguma coisa?

- Não. A Belinha ainda estava muito traumatizada com o incêndio. Não queria saber de homem. Mas hoje ela me telefonou muito animada porque apareceram outras abelhas no quintal e ela está pensando em chamar o Brad Pitt de novo. Ela acha que se surgirem mais abelhas será um sinal para que ela chame o Brad Pitt, e seja o que Deus quiser. A Natureza estará lhe dizendo para esquecer sua mágoa com os homens e tentar de novo. Ela...

- Ssshh. Vai começar a sessão.

E você precisa se controlar para não se virar para traz e pedir:

- Por favor. A Carol. Rapidamente, antes que comece o filme. Como é a história da Carol?

Vidas alheias, vidas alheias. Poços de surpresas.

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