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Vidas

Extraordinário é fazer um filme sobre o corriqueiro, sobre o não extraordinário, como fez o diretor mexicano Alfonso Cuarón em 'Roma'

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2019 | 02h00

“Minha vida daria um filme.” A não ser que essa frase venha acompanhada de uma atenuante – como “de baixo orçamento” – quem a diz se arrisca a ser chamado de presunçoso ou coisa pior. Em geral, vidas não dão filmes. O romance, a aventura, o drama, a epifania, o acidente, o episódio místico – enfim, o que torna uma vida extraordinária – quase sempre só é uma vida extraordinária na opinião de quem conta.

– Minha vida daria um filme...

– Não. Aquela história da cigana de soutien rosa, de novo? Não! 

Extraordinário é fazer um filme sobre o corriqueiro, sobre o não extraordinário, como fez o diretor mexicano Alfonso Cuarón com o seu Roma, que todo mundo, literalmente, está adorando. O diretor decidiu que sua vida daria um filme, e deu. Mas seu personagem não é identificado no filme, ele é um dos meninos. Uma personagem principal é a babá do menino, outra personagem importante é o México dos conturbados anos 70, e a terceira personagem é a humanidade além da casa do menino, uma identificação tão forte que explica o sucesso do filme apesar do lançamento pouco ortodoxo.

Pode-se argumentar que Roma é, junto às outras pretensões de Cuarón, um elogio à burguesia de bom coração e que o diretor sentimentaliza o que é, no fundo, uma relação de vassalagem. Mas a vida é do Cuarón e sua evocação do colo da babá, um prazer que todos podemos compartilhar.

A vida de Dick Cheney deu um ótimo filme, que também é uma lição de História. O melhor que se pode dizer em defesa de Cheney é que ele não é o pior vilão na tela. Lá estão Donald Rumsfeld, Henry Kissinger, Paul Wolfowitz, a figura melancólica do general Colin Powell, obrigado a dizer nas Nações Unidas o que sabia não ser verdade, para justificar o ataque ao Iraque. A História que o filme conta é a da transformação de um bandido conveniente, Saddam Hussein, numa razão para atacar o Iraque e garantir seu petróleo e acabar com as armas de destruição em massa que sabiam que não existiam. 600 mil civis iraquianos morreram na guerra falsificada.

Segundo o filme, Cheney foi um bom pai. 

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