Vidal, o fim do estilo

Autor de livros polêmicos e provocador de tempo integral, ele castigou os políticos e a religião com seu ego incontrolável

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2012 | 03h11

A ambição literária de Gore Vidal era proporcional ao ego desse aristocrata americano, meio-irmão de Jackie Kennedy e parente de Al Gore que muito cedo aprendeu na Academia Militar ser o mundo dividido entre comandantes e comandados. Ele preferiu o primeiro papel, apesar de trocar a carreira militar por um lugar menos confortável no mundo literário, onde arranjou mais inimigos que amigos. Gore Vidal incomodava. E incomodava por ter estilo, definido por ele como um atributo de quem se conhece bem, sabe o que quer dizer e diz, sem se importar o mínimo com a opinião alheia.

Sua visão da história é, portanto, extremamente pessoal. Aos 14 anos, dizia ter lido tudo o que importava sobre ela. E provaria, no futuro, ter opiniões bem diferentes dos historiadores oficiais. No romance histórico Juliano (1964), por exemplo, ele entra na contramão ao defender que Constantino, ao apoiar o nascente cristianismo, estaria mais interessado em autopromoção política do que propriamente em professar sua fé religiosa. O imperador romano Flavius Claudius Julianus, assim, não agiu errado ao restaurar antigas seitas profanas e mais antigas e lutar contra o cristianismo (de modo sintomático, o escritor acaba assumindo a narração no lugar do imperador, que deixa um manuscrito destinado a um futuro editor - o próprio autor, claro).

Em 1981, aprofundaria seu estudo sobre religiões ancestrais ao escrever o extenso Criação. Nele, o escritor acompanha as viagens de um diplomata persa do século 5.º, empenhado em comparar as crenças e religiões de povos orientais com a filosofia dos antigos gregos. Lincoln (1984), como se disse, é uma biografia controversa do 16.º presidente norte-americano, em que Gore Vidal, num volumoso e pesquisado estudo, mostra o líder mais empenhado em controlar a União do que com o destino dos escravos ou os horrores da Guerra Civil. O escritor jamais assume o ponto de vista do presidente. Vidal é Vidal o tempo todo. Estilo é tudo para ele, e é assim que ele surge, exuberante, numa cena de Roma, de Fellini, representando a si mesmo (ele morou em Ravello com Howard Auster, seu companheiro por 53 anos).

Criado pelo avô cego, Eugene Luther Gore Vidal, nascido em 3 de outubro de 1925, em West Point, Nova York, desde cedo aprendeu a detestar a mãe alcoólatra, Nina Gore, filha do senador democrata Thomas P. Gore. Seu mundo era essencialmente um mundo masculino. Tanto que uma das poucas personagens femininas de sua ficção é um transexual, que, no livro Myra Breckerindge (1968), estupra um garanhão de Hollywood com um dildo e, depois de um acidente e a vã tentativa de mudar de sexo, acaba como eunuco. Não era o caso do hipersexuado Vidal, que se orgulhava de ter transado com toda a beat generation (Jack Kerouac incluído).

Grande roteirista de cinema (leia texto acima), ele assinou o do filme De Repente, no Último Verão, baseado na peça de seu amigo Tennessee Williams, tratando com elegância um tema insólito, o do canibalismo ligado ao estupro de um gay.

 

Fascínio por imagens em movimento

Gore Vidal sempre teve a fama de ser melhor de ensaio que de ficção. Isso é tanto mais interessante porque ele próprio dizia que o cinema foi decisivo na formação do seu imaginário. Ele viu o primeiro filme aos 4 anos e, desde então, as imagens em movimento nunca deixaram de fasciná-lo. Escreveu Screening History, filtrando acontecimentos históricos por meio do tratamento que tiveram no cinema.

Há 16 anos, quase veio filmar no Brasil com os irmãos Vinicius e Diogo Mainardi. Adorou o roteiro de Sightseeing, sobre turista que se envolve com traficantes e tem os olhos arrancados. Gay de carteirinha, dizia que Charlton Heston teria tido uma síncope se percebesse a intenção velada da cena que escreveu para Ben-Hur, de William Wyler, em que as lanças do herói e de seu desafeto, Messala, se interpenetram.

Não teve sorte em Hollywood. Homem e Mulher Até Certo Ponto, de Michael Sarne, baseado na história da transexual Myra Breckinridge, é um filme ruim, apesar do elenco. Já Vassalos da Ambição, de Franklin Schaffner, sobre um candidato gay, resultou num bom filme. / LUIZ CARLOS MERTEN

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