VIDA REAL

An Episode in the Life of an Iron Picker surpreende ao retratar um casal de ciganos interpretando o próprio drama

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / BERLIM, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2013 | 02h08

E, de repente, da Bósnia- Herzegó-vina- Eslovênia veio um pequeno milagre. O novo filme de Danis Tanovic mistura documentário e ficção, num formato de docudrama. An Episode in the Life of an Iron Picker começou a nascer quando o diretor leu um artigo de jornal, sobre uma história ocorrida com um casal de ciganos. Ele é catador de ferro. Vive com a mulher e as duas filhas em condições precárias, mas é uma boa vida. A mulher começa a sentir-se mal. Ele a leva para um centro médico, em busca de atendimento. A mulher estava grávida, mas perdeu o bebê e agora é preciso um procedimento simples, uma curetagem, mas de qualquer maneira caro para o casal. Eles não têm seguro, recorrem a vários hospitais e instituições. Nenhuma ajuda. No limite, conseguem o seguro social de outra pessoa, senão ela morreria de infecção generalizada, com o bebê morto em seu ventre.

A história é real e Tanovic a reconstitui com os próprios protagonistas. Ninguém é ator em cena, talvez um ou dois (os médicos). Na coletiva, Senada Alimanovic, a mulher, disse que gostaria que o que ocorreu com ela não se passe com nenhuma pessoa. Nazif Mujic, o marido, hoje dirige uma associação, uma ONG, que trabalha principalmente com crianças, tentando criar condições para que estudem, tenham assistência médica. "Não se fala em outra coisa senão na crise econômica que atinge a Europa. Em meu país, vivemos em crise pelo menos nos últimos 35 anos, incluindo uma guerra terrível que provocou morte e destruição. Em vez de ceder ao desespero, eu filmo para contar essas histórias." Um Episodio na Vida de Um Catador de Ferro é um convite à ação, à solidariedade.

Poderia ficar nas boas intenções e o cinéfilo sabe que o caminho do inferno é pavimentado com filmes que não vão além das delas. Não é o caso de Tanovic, que filma bem - ele até já ganhou o Oscar por Terra de Ninguém - e aqui assina outra obra austera, rigorosa e de grande densidade emocional. Só para efeito de comparação - Lota de Macedo Soares tem um piti e joga na cara de Elizabeth Bishop que ela nunca disse que a amava, no filme brasileiro de Bruno Barreto, Reaching of the Moon. Lota é um trator, egocêntrica, dominadora e talvez nem tenha consciência de que é. Faz parte da arrogância da classe dirigente a que ela pertence.

O cigano de Tanovic nem tem tempo de dizer à mulher que a ama, mas em todos os seus gestos, no seu desespero para salvá-la, o espectador identifica um sentimento profundo. No final, o filme volta ao começo, o casal na casa. Acende-se a luz e o marido reclina a cabeça no ombro da mulher. É o seu gesto de carinho, a sua maneira de dizer que a ama, e o espectador a entende.

Um festival de cinema se faz de cenas, de filmes, de encontros. Esse breve momento de Um Episódio vai ficar gravado na lembrança como um dos mais fortes da Berlinale de 2013. No geral, não está sendo um grande festival - muitos filmes medianos, mas aqui e ali destacam-se alguns, que ficam acima dessa média e são extraordinários, senão realmente extraordinários. O chileno Gloria, de Sebastian Lelio, o russo A Long and Happy Life, de Boris Khlebnikov, talvez um pouco menos o romeno Childs Pose, de Calin Peter Netzer, agora o belo filme de Tanovic, são exceções que o júri presidido por Wong Kar-wai dificilmente poderá ignorar.

Claude Lanzman está sendo homenageado com um Urso de Ouro especial, por sua carreira. Ontem, num encontro na Cinemateca Alemã, ele falou sobre a Shoah em seu cinema. É importante que justamente em Berlim, que já foi o centro daquele delírio sonhado por Adolf Hitler - o Reich que deveria durar mil anos -, Lanzman tenha vindo falar de estética, por certo, mas também de racismo. Muitas formas de discriminação têm sido abordadas aqui, este ano, e esta é uma característica de sempre na Berlinale. Jafar Panahi, confinado no Irã, conseguiu contrabandear um filme de guerrilha que codirigiu com Kamboziya Partovi. O próprio Partovi faz o protagonista, um roteirista que se isola numa casa para tentar salvar seu cão. O islamismo radical considera esses animais impuros e, na TV, aparecem as imagens da cidade (e da chacina) de cachorros nas ruas.

O catolicismo também tem dessas aberrações. Um homem cultivado como o escritor católico Paul Claudel não manda matar cachorros, mas confina a irmã num manicômio. Você conhece a história de Camille Claudel, que já originou um filme famoso de Bruno Van Nuytten com Isabelle Adjani. A Camille Claudel de Adjani vivia um tórrido romance com Auguste Rodin. A de Bruno Dumont - e seu filme se chama Camille Claudel 1915 - é interpretada por Juliette Binoche e, nesse ano específico, já separada há tempos da família por decisão do irmão, ela recebe a visita de Paul Claudel. Camille pede para sair, arrasta-se aos seus pés e ele invoca alguma razão divina - a punição por um aborto - para mantê-la ali dentro, onde a pobre mulher viveu por mais 29 longos anos. Dumont com certeza quis fazer de Camille Claudel a sua Joana D'Arc, tomando como referência o cinema transcendental do dinamarquês Carl Theodor Dreyer. Juliette e a sua Falconeti, cujo êxtase - as lágrimas, o riso - ele capta em grandes primeiros planos, mas, de alguma forma, a ascese, que sempre está no centro de seu cinema, desta vez não aflora.

E a todas essas, surgem outros filmes pequenos, como gemas. No Forum, Strange Little Cat, do alemão Ramon Zurcher, é enérgico como Gloria, mas num outro contexto. Passa-se quase todo dentro de um apartamento - a garota e seu gato, a mãe que sente aflorar a tensão sexual com o vizinho que conserta o encanamento da máquina de lavar. Não é preciso muita coisa mais para que Zurcher logre um bom filme. O francês Jacques Doillon também filma uma espécie de tensão sexual, mas à maneira dele, em Love Battles, Mes Seances de Lutte. Uma mulher volta para casa, após a morte do pai, com quem se relacionava mal. Ela encontra um homem por quem, no passado, teve atração. Mas o casal não vai para a cama, ou não vai imediatamente. Antes do sexo, existe uma batalha verbal, em que um parece querer dominar o outro. E, quando finalmente fazem sexo, é com um pudor raro no cinema da França. Num encontro com o repórter, Doillon diz que faz filmes de pequeno orçamento (como esse) porque, se fosse esperar por orçamentos confortáveis, teria feito quatro ou cinco e não os 27 que até agora compõem sua obra em processo (e progresso). Como diz o chileno Lelio: para que ir à Lua, se as boas histórias estão aqui, a dois metros?

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