Vida feita de filmes

NEW JERSEY - Pensei certa tarde que, aproveitando o embalo do Oscar, eu deveria sentar e escrever uma coluna a respeito de como os grandes filmes se tornam parte da fibra mais essencial de nossas vidas. O primeiro filme que gostaria de comentar é Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica - e, para minha surpresa, a indignada e bem articulada crônica de Roberto DaMatta, publicada no dia seguinte, fez desta notável obra de arte e veracidade o seu ponto de partida. Soube então que estava no rumo certo.

Lee Siegel,

12 de março de 2012 | 06h53

 

Vi Ladrões de Bicicleta pela primeira vez há cerca de 30 anos. Estudava na Universidade Columbia, em Nova York, e tinha combinado um encontro com Gina, a quem conhecera na aula de italiano, para assistir com ela a uma exibição do filme na Casa Italiana. Devo dizer que tudo isso se passou dez quilos atrás, há toda uma cabeleira, e talvez o leitor não duvide se eu contar que ela recusou o convite do filho do embaixador mexicano para poder sair comigo. Ao menos, foi o que ela me confessou. Jovem inseguro vindo de circunstâncias modestas, fiquei em êxtase ao crer que tivesse arruinado a noite de algum herdeiro privilegiado.

 

Gina era linda, e Gina era rica, e Gina era a filha de um exilado cubano de direita que vivia em Miami. Para mim, isso era menos importante do que o fato de ela ter aceitado ir ao cinema comigo. Assim, sentamos em nossos lugares, as luzes se apagaram (ah, que momento sagrado!) e o filme começou. Trata-se da história de um homem pobre que tem a bicicleta roubada e, desesperado, acaba roubando outra bicicleta para poder chegar ao trabalho, sendo então humilhado por uma multidão vingativa diante do filho, arrasado. Quando tinha 15 anos, assisti meu próprio pai, um delicado pianista de jazz, chorando na cadeira depois de ter sido demitido do seu emprego de verdade, numa imobiliária. Subitamente, meus olhos se encheram de lágrimas ao ver o menino lutando contra a multidão para, teimoso, defender o pai. Sem tirar os olhos da tela, Gina se inclinou e sussurrou no meu ouvido: "Ele teve o que mereceu". Travamos uma luta de classes durante a noite toda. Depois, nunca mais nos falamos.

 

Meu amor pelo cinema foi inspirado pela minha mãe, professora do primário e atriz frustrada. Suas ambições jamais concretizadas tiveram o efeito de ampliar a sua paixão. Mamãe se deixava envolver tanto pelos filmes a ponto de às vezes ter dificuldade para distinguir a vida real das cenas projetadas na tela. Gostava especialmente de Elizabeth Taylor. Certa noite, em meados da década de 60, ela e meu pai foram ver Elizabeth e Richard Burton em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, o pungente filme de Edward Albee a respeito da lenta revelação da fantasia, das mentiras e do delírio no núcleo de um casamento em fase de desintegração. Ela e meu pai voltaram para casa numa espécie de estado de choque. Depois daquilo, passaram semanas sem se falar. Gradualmente, o silêncio deu lugar aos gritos. Dez anos mais tarde, minha mãe tornou-se a atriz principal no seu próprio divórcio.

 

Quando tinha 10 anos, apesar de estar com febre de 40 graus, caminhei com meu melhor amigo, Johnny McNamara, por uma avenida movimentada até o cinema para ver um filme de James Bond, Com 007 Só Se Vive Duas Vezes. Voilá! Naquele dia, na doce, refrescante e protetora escuridão, meus sentidos delirantes deram mais corpo às imagens do filme na minha consciência, como a argila molhada num forno. Adquiri uma identidade alternativa que me protegeu da turbulência em casa. Infelizmente, imaginei ser um distante e superior 007 por alguns anos a mais do que deveria ter imaginado, tornando-me como o papagaio de um desenho que vi certa vez, que cantava animado I’ve Got To Be Me (Tenho de ser eu mesmo) em sua gaiola.

 

Um ano mais tarde, apaixonei-me por uma marroquina. Ela vinha de uma família sefardita, que ainda morava no Marrocos e que, ao que me parecia, passava seu tempo tentando conquistar a simpatia da família real marroquina, sem sucesso. Pior ainda, eles não aprovavam nosso relacionamento. A mãe dela veio visitá-la em Nova York e fui incumbido de alugar um filme que nós três pudéssemos assistir. Voltei para casa trazendo Um Escravo das Arábias em Roma, a história de um engenhoso escravo romano que é constantemente humilhado pela aristocracia romana e, por meio das mais cômicas e vulgares reviravoltas, acaba triunfando. Mas o filme não agradou.

 

Recentemente, gostei de Madagascar, que vi com minha mulher e meu filho de 5 anos enquanto nossa filha menor dormia no quarto ao lado. Trata-se de uma animação que conta a história de um grupo de animais do Zoológico do Central Park, de Nova York. Eles fogem em busca da liberdade, mas acabam indo parar na África - onde aprendem que ainda têm um ao outro. Não conseguia parar de rir de prazer. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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