Vida em vermelho

Antonio Fagundes ensaia ao lado do filho Bruno uma peça que reflete sobre o trabalho do pintor Rothko

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2012 | 03h09

Enquanto reflete sobre Shakespeare, Nietzsche, Jung e Freud, Antonio Fagundes mistura tinta vermelha com ovos e fungicida, formando uma pasta rubra que será aplicada na tela de pintura que é preparada pelo filho Bruno. Este, por sua vez, enquanto monta a moldura, responde com elogios à pop art de Andy Warhol, Roy Lichtenstein e outros. O encontro não é fortuito como parece - juntos, pai e filho ensaiam a peça Vermelho, que estreia dia 29 de março, inaugurando o mais novo teatro da cidade, o GEO, instalado no prédio que também abriga o Instituto Tomie Ohtake. "É uma troca de conhecimento, mas, ao mesmo tempo, um enfrentamento de gerações, como bem prega o texto da peça", observa o diretor Jorge Takla.

De fato, escrito pelo americano John Logan, Vermelho (Red, no original) apresenta um diálogo socrático entre mestre e pupilo: de um lado, o célebre pintor Mark Rothko (1903-1970), reconhecido como um artista singular do abstracionismo; do outro, Ken, jovem assistente que logo revela uma inteligência apurada e inquisidora. Da conversa travada entre os dois, despontam não apenas as diferenças entre homens de idades e culturas distintas, mas uma profunda e emocionante relação entre o artista e sua criação.

A história se passa no estúdio de Rothko em Nova York, entre 1958 e 59. Ele se prepara para pintar uma série de quadros encomendados por um restaurante de luxo, o Four Seasons. Enquanto mistura tintas e prepara as telas, ele passa orientações a Ken que, para sua surpresa, passa a questioná-lo sobre seus conceitos artísticos - afinal, como um pintor tão cioso de seu trabalho aceita realizar um projeto puramente comercial?

"Logan foi extremamente inteligente ao localizar a peça nesse momento, pois capta não apenas a mudança na pintura de Rothko como na arte moderna como um todo", conta Fagundes pai que, ao lado de Bruno, estudou profundamente todos os movimentos artísticos da época. "É uma fase de grande efervescência, quando a pop art contesta o tradicionalismo", completa Fagundes filho que, ao contrário de seu personagem, vem absorvendo os experientes conselhos do pai.

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