Divulgação
Divulgação

Vida e obra de um mago

Dos Sermões de Vieira à arte feita no exílio, Jorge Mautner celebra sua trajetória

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h10

Filho do Holocausto e do tai chi chuan. Jorge Mautner credita ao segundo a excelente forma física. Todo dia, pratica ginástica por três horas. Interessam-lhe o que chama de "bases medicinais" da prática milenar, com elementos de shao-lin. Mas só a preparação física não basta. "Sou um abençoado", ele repete várias vezes durante a entrevista. Escritor, cantor, compositor, cineasta, Mautner tem sido um pensador do amálgama social brasileiro e, como tal, se faz presente na cultura do País no último meio século. Mas está mais atuante que nunca.

No24, ele estará em São Paulo, no Sesc, com seu eterno parceiro, Nelson Jacobina. O show integra homenagem a Neville D'Almeida, para quem escreveu Jardim de Guerra. Mautner também é personagem do documentário que Pedro Bial e Heitor D'Alincourt levaram ao Recife. O Filho do Holocausto foi feito para cinema e, no dia 15, deverá incendiar o Festival do Cinema Brasileiro de Paris. Ontem, no Rio, D'Alincourt, Bial e o diretor do Canal Brasil, Paulo Mendonça, reuniram-se para discutir datas. Se não surgir parceiro para o grande lançamento que o filme merece, o Canal Brasil repetirá a experiência de Loki, que teve distribuição independente.

O selo do Canal lançará o CD com a íntegra das canções editadas no filme. E, culminando tudo, o Canal Brasil promete abrir janela para exibir o longa mítico de Jorge Mautner, O Demiurgo, que ele fez quando exilado em Londres, com Caetano Veloso e Gilberto Gil. O filme tem problemas de som, mas o resgate é importante e, contextualizado, o público poderá aceitar as deficiências técnicas da obra em troca do muito que ela pode oferecer. Jorge é só alegria. "Sou um abençoado."

No Recife, primeiro o curta Maracatu Atômico e, depois, a explosão de O Filho do Holocausto. Como se sentiu?

É difícil explicar a sensação de felicidade, mas o carinho daquele público me fez sentir pleno, tranquilo. Eles entenderam que o que faço possui uma estrutura de pensamento. Durante toda minha vida, o que mais gostei e gosto de fazer é criar grupos de estudos. Em Londres, no exílio, formamos, Gil, Caetano e eu, um grupo gramsciano/brasileiro. Estudamos os pré-socráticos, a mitologia. Sou filho de judeu austríaco, que era fascinado pelo Brasil e queria decifrar este País. Nasci um mês após meus pais desembarcarem aqui, fugindo do Holocausto. Quando se separaram, minha mãe se casou de novo e o marido dela era viola da Sinfônica de São Paulo. Eu tinha uma relação de amor e ódio com meu padrasto, mas por meio dele conheci a efervescência cultural de São Paulo nos anos 1950. O pensamento, a filosofia, a música, tudo se amalgamou no meu imaginário. E foi fundamental minha mãe ter ficado doente, o que me levou a ser criado pela babá que me introduziu no candomblé.

Além de filho do Holocausto, você também é a combinação perfeita de amálgama, não?

Nos shows e textos, falo muito desse amálgama. O termo se refere ao processo de mistura dos metais na formação de ligas e foi usado por José Bonifácio para se referir à capacidade de as culturas terem produzido, no País, algo além da miscigenação. Na verdade, é um conceito antigo, que vem desde os Sermões do Padre Vieira. No Brasil, somos todos mestiços, graças a Deus, e, sem romantizar, o País fornece um exemplo e uma alternativa. Ou o mundo se abrasileira ou a coisa vira nazista de vez.

Tudo isso permeia sua música, seus livros. Como surgiu o filme?

A ideia veio do (Pedro) Bial e do Heitor (D'Alincourt). Já conhecia o Bial, que sempre curtiu meus shows. O Heitor integrou minha banda. Dei carta branca para que selecionassem as músicas, o que deveria dizer. Fiquei feliz com o resultado.

Alguns reclamaram que suas falas são leituras dos textos. Por que você não deu uma entrevista?

Falo demais e a viabilização do projeto passava por um rígido cronograma. Tínhamos quatro dias de estúdio. O formato não apenas salvaguardou o que interessava aos diretores. Foi uma forma de me conter, mantendo a estrutura de pensamento.

Mas também ficcionaliza o documentário, o que é muito interessante. E o som é maravilhoso.

O som do filme é elaborado, tem músicas minhas que ficaram melhores. O lançamento do CD, vai ser um marco da minha carreira.

Esse resgate da sua figura envolve também o resgate do filme feito em Londres. Qual o problema de Demiurgo?

O filme é uma chanchada filosófica que fiz no exílio, morrendo de saudade do Brasil. Filmei em 16 mm, um bando de loucos discutindo questões fundamentais, tudo muito sério. O problema é que o técnico de som tinha tomado um ácido e o sincro ficou desconectado. A ditadura militar, inclusive, tirou o filme de circulação alegando falta de qualidade técnica. Esse problema de sincro entre imagem e som permanece, mas o Canal Brasil exibir me faz muito feliz.

A grande cena é o diálogo com sua filha: dois adultos que se admiram e amam e encaram suas diferenças sem ressentimentos.

Se você se emocionou, imagine eu. O mérito é da Amora (a filha). Ela é maravilhosa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.