Vida e morte retratadas sobre o palco cênico

Robert Wilson dirige espetáculo em que a artista plástica Marina Abramovic simula seu próprio funeral

Charles Isherwood, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2013 | 02h09

NOVA YORK - A fantasia de poder espiar o próprio funeral tornou-se real para ao menos um dos mortais, a artista performática Marina Abramovic, cujo trabalho data dos anos 1970 e que se tornou uma figura regularmente adorada no circuito de artes-celebridades da última década. Em The Life and Death of Marina Abramovic, peça de teatro musical que está sendo apresentada no Park Avenue Armory, Abramovic está sendo velada - luxuosamente.

Como convém a uma estrela do mundo da arte, o drama do pseudo velório de Abramovic foi confiado a outro luminar estético, o diretor de teatro e de ópera Robert Wilson. A concepção do projeto surgiu quando Abramovic telefonou para Wilson e perguntou se ele estava interessado em encenar seu funeral. A morte é uma preocupação primária desta artista autopunitiva. E ele aceitou, com a condição de encenar a vida também. No palco, para oferecer interpretações laudatórias e biográficas, estão também figuras bem conhecidas de outras esferas artísticas: o compositor e cantor Antony e o ator Willem Dafoe.

Se você já teve a fantasia de contemplar o próprio enterro e preparar a lista de convidados, provavelmente não sairá de Life and Death com alguma dica prática. A concepção visualmente opulenta, mas dramaticamente opaca da vida e da carreira de Abramovic, provavelmente só dará prazer a admiradores fervorosos de Abramovic e Wilson. Os dois artistas são conhecidos por criar obras que testam os poderes de resistência de públicos (e de artistas).

Marina está presente no palco. Aparece em Life and Death em vários trajes. O espetáculo começa com uma de suas imagens mais chocantes: três figuras femininas quase idênticas, seus rostos pintados num branco vampiresco, são encontradas deitadas imóveis em estruturas pretas parecidas com ataúdes. Cães pretos, projetados em silhueta contra um pano de fundo intensamente iluminado, irrompem através do palco, farejando e mastigando numa pilha de ossos elegantemente arrumada. Uma das figuras é Abramovic, que já escreveu que quando morrer de verdade deseja ter três ataúdes envolvidos em seu enterro, presumivelmente para semear confusão e mistério.

Sinistro. Abramovic faz sua primeira aparição no drama biográfico retratando a própria mãe, que desponta como uma influência dolorosa em sua vida. A maior parte da narração é feita por Dafoe, tecendo comentários incessantes sobre a ação a partir de uma plataforma diante do palco principal, rodeado por pilhas de jornais.

Dafoe revela-se um homem sinistro e sarcástico ao lembrar de pontos de destaque da vida de Abramovic - 1968, "a descoberta do zen budismo"; 1973, "queima o cabelo, risca uma estrela no seu estômago com lâmina de barbear" - a histórias de sua vida doméstica traumática durante a infância na Iugoslávia.

As passagens mais sombrias de sua juventude foram claramente experiências formativas. A certa altura, Dafoe descreve uma briga de Marina com sua mãe - ao final, a filha ouve dela que, como fora ela que dera vida a Marina, também poderia tirá-la. Dito isso, ela atirou um pesado cinzeiro na sua cabeça. Marina pensou em deixar o objeto atingi-la, mas se esquivou no último instante.

A arte que ela criaria flertaria com o impulso de autodestruição despertado por este e outros incidentes. De certa maneira, a mãe odiada de Abramovic personificou a ideia de morte para ela - e aparece aqui como uma figura sinuosamente ameaçadora.

O impulso de transformar fisicamente seu corpo pela automutilação nasceu, assim é sugerido humoristicamente, pelo desejo juvenil de Marina de quebrar o próprio nariz - queria fazer uma plástica e ficar parecida com Brigitte Bardot. Uma das canções escritas e cantadas por Antony ressalta a ideia de criar arte a partir do abuso: "Farei um colar com as pedras que você atira".

As histórias da criação rude de Abramovic iluminam os processos de seu humor macabro, mas boa parte do resto do texto é impenetrável. Não há, por exemplo, reflexões convincentes sobre sua carreira ou os temas que percorrem seu trabalho.

No segundo ato, Dafoe e Abramovic, vestidos com uniformes militares, sentam-se no palco e conversam sobre as dificuldades dela com o romance. Os comentários desenfreados de Dafoe são em geral hilariantes, cortando a seriedade lúgubre de Abramovic.

Essa impertinência também penetra o espetáculo em algumas outras passagens, como quando ela oferece uma série de receitas para "cozinhar o espírito", ou quando o elenco grita em megafones uma série de receitas para a vida de artistas - "um artista deve ter consciência da própria mortalidade". Se havia uma intenção satírica, eu não saberia dizer. Mas boa parte do que ocorre em Life and Death desafia uma exegese fácil, ou mesmo a simples compreensão. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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