Vida e morte de um homem duplicado

Morto ontem, aos 87 anos, José Saramago, Nobel de Literatura de 1998, deixa um livro inacabado sobre tráfico de armas e uma existência marcada pela revisão constante de suas posições políticas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

A morte do escritor português José Saramago, aos 87 anos, ontem pela manhã, em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, de complicações respiratórias provocadas por um fungo e leucemia crônica, causou comoção internacional entre leitores, escritores, cineastas, políticos e autoridades governamentais. O prêmio Nobel de Literatura 1998 passou mal após tomar o café da manhã e não resistiu, apesar de ter recebido auxílio médico imediato. Uma nota assinada pela Fundação José Saramago confirma que o escritor morreu de forma serena e tranquila. Seus restos mortais serão levados ao cemitério lisboeta de Alto de São João e incinerados amanhã, segundo fontes da mesma fundação. O corpo do escritor, velado ontem na biblioteca que leva seu nome em Lanzarote, chega hoje a Portugal num avião militar do governo do país e será exposto no salão de honra da Câmara Municipal de Lisboa até o meio-dia. Segundo o administrador da Fundação José Saramago, José Sucena, é possível que as cinzas do escritor sejam espalhadas em Lanzarote ou sua terra natal, Azinhaga, mas isso vai depender de sua mulher, a jornalista Pilar del Rio, que não se pronunciou a respeito.

Também ganhador do prêmio Camões - a mais alta condecoração da língua portuguesa -, Saramago deixou um livro inacabado em seu computador, Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas!, que, apesar do título - referência a um verso do dramaturgo português Gil Vicente -, não é uma reflexão sobre a obra do compatriota, mas sobre o tráfico de armas. Violência política e religião foram suas duas últimas preocupações. Sobre sua mesa de trabalho repousava o livro do jornalista e escritor espanhol Juan Arias, El Gran Secreto de Jesús (O Grande Segredo de Jesus), em que o autor, a exemplo do que Saramago fez com O Evangelho de Jesus Cristo, questiona a teologia da cruz e da redenção para propor uma teologia da felicidade. Também lia simultaneamente o último romance de Thomas Mann (Confissões do Impostor Félix Krull) e Às Cegas, de seu amigo italiano Claudio Magris.

Como as alabardas de longas hastes usadas contra invasores de fortalezas na Idade Média, Saramago era cortante em suas críticas contra as instituições, fossem elas políticas ou religiosas. Mistura de lança e machado, a alabarda tanto servia para escalar muralhas como para afundar as cabeças dos inimigos. E Saramago fez isso nos livros e na vida. Nascido numa família humilde de camponeses de Azinhaga, vilarejo da província portuguesa do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922 (o registro oficial é do dia 18), não pôde frequentar uma universidade, começando a vida como serralheiro mecânico. Sua escalada social, portanto, teve início pela literatura de outros autores. Autodidata, após publicar o primeiro romance, Terra do Pecado (1947), começou a traduzir escritores como Tolstói e Baudelaire, tendo sido influenciado especialmente pelo russo em sua defesa política dos menos favorecidos.

A denúncia de injustiças sociais marcou até o fim sua carreira literária."Não se trata de instruir, senão de educar", escreveu Saramago em seu livro recém-publicado, Democracia e Universidade (pela espanhola Editorial Complutense), em que diz que a democracia está gravemente enferma e é preciso ensinar cidadania às crianças antes que seja tarde, justificando assim que os governos prestem mais atenção à educação primária do que à universitária. A Companhia das Letras, que publica todos os seus livros no Brasil, ainda não tem planos de lançar Democracia e Universidade ou Alabardas, Alabardas no Brasil.

Seu último livro publicado aqui foi Caim (2009), reinvenção ácida do Antigo Testamento em que Deus aparece com letra minúscula entre vírgulas e mais vírgulas - Saramago detestava ponto final. Os protagonistas da história bíblica ganham novas personalidades no livro. A conclusão da história é pessimista: seríamos todos perversos caimitas, descendentes de um assassino de sangue ruim que, no epílogo, vocifera contra o Criador pedindo que o mate, o que não acontece. Eles continuam discutindo por toda a eternidade.

Igreja. Saramago, já malvisto pela Igreja por causa de O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) - tentativa de humanizar a figura do Cristo como Pasolini fez em seu filme O Evangelho Segundo Mateus (1964) -, ficou ainda mais distante dela. Ontem, no entanto, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Conferência Episcopal Portuguesa, padre José Tolentino, disse a um jornal português que "a Igreja perde um crítico com o qual soube dialogar constantemente". Pode ser. Saramago estava sempre pronto a rever suas posições, mas nunca poupou críticas ao papa Bento 16.

Prova disso foi sua atuação no episódio em que o governo de Fidel Castro mandou executar, em 2003, três cubanos que sequestraram um barco e tentaram fugir para os EUA. Saramago condenou o regime castrista, dizendo que Cuba havia perdido a sua confiança e traído seus sonhos - o escritor era comunista e ateu -, mas, dois anos depois, voltou a elogiar Castro publicamente e condenar os EUA por sua "fisionomia fascista". Polêmico, ele provocou reações calorosas de Israel, em 2002, ao comparar o horror nazista no campo de Auschwitz à atuação dos militares israelenses na Cisjordânia, ocupada por Israel.

Política. A primavera política de Saramago teve início em 1948-49, quando fez oposição ao candidato dos salazaristas à presidência da República, apoiando o general Norton de Matos, o que lhe custou o emprego. Saramago aderiu ao Partido Comunista Português após a queda de Salazar e sua substituição por Marcelo Caetano. É sempre lembrado como o único militante que se opôs a eliminar a expressão "ditadura do proletariado" do programa do partido.

Poucos citaram sua militância ao falar aos jornais sobre a morte de Saramago, que fustigava políticos europeus como Sarkozy e Berlusconi. Tampouco comentaram seu estilo rebuscado, algo barroco, de longos parágrafos. Essa tarefa coube ao professor espanhol Fernando Gómez Aguilera, que, em sua biografia cronológica, A Consistência dos Sonhos, conta como o pensamento ideológico de Saramago foi se transformando até assinar violentos petardos - devidamente censurados com lápis vermelho - contra a ditadura portuguesa como editorialista do Diário de Notícias. Com nostalgia do ofício, Saramago, por insistência da mulher jornalista, converteu-se em blogueiro há pouco mais de dois anos.

Numa tese defendida em Yale, o acadêmico Horácio Costa argumenta que em suas crônicas jornalísticas está o embrião de sua obra literária, que tem 38 livros entre romances, peças de teatro, diários, poesias, crônicas e memórias. O nome de José Saramago começou a ser ouvido com mais constância nas rodas literárias após a publicação do romance Memorial do Convento, em 1982, história irônica que relaciona a construção do convento de Mafra - negociada com Deus em troca de um herdeiro para o reino de Portugal - e a delirante relação de um casal envolvido no projeto de criação de uma passarola, representação metafórica da liberdade que faltava a Portugal.

Vem de Memorial do Convento esse gosto pela alegoria que marcou tão profundamente a literatura de Saramago, agradando a seus leitores mais fiéis e desagradando a alguns críticos. Em A Jangada de Pedra (1986), Portugal é a tal embarcação do título vagando sem rumo pelo oceano. Em Ensaio Sobre a Cegueira (1995), toda uma cidade fica cega às vésperas do fim do milênio, marcado pelo advento de uma espécie de mutação antropológica em que todos se curvam ao delírio consumista. Finalmente, em A Viagem do Elefante (2008), um paquiderme nascido em Goa no século 16 é transportado pelos mares, chegando sujo, cansado e fedorento em terras portuguesas para cruzar a Espanha, a Itália e os Alpes até chegar a seu destino, a Áustria.

A metáfora da experiência existencial humana aplicada ao elefante indiano era particularmente cara a Saramago no momento em que começou a escrever a história de A Viagem do Elefante. Foi exatamente há três anos que começaram seus problemas respiratórios e a epígrafe escolhida para o livro traduz sua pacificação com a morte: "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam." Uma epopeia histórica que acabou, enfim, servindo de testamento literário.

Toda obra

TERRA DO PECADO, romance, 1947

OS POEMAS POSSÍVEIS, poesia, 1966

PROVAVELMENTE ALEGRIA, poesia, 1970

DESTE MUNDO E DO OUTRO, ensaio, 1971

A BAGAGEM DO VIAJANTE, ensaio, 1973

AS OPINIÕES QUE O DL TEVE, ensaio, 1974

O ANO DE 1993. poesia, 1975

OS APONTAMENTOS, ensaio, 1976

MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA,

romance, 1977

OBJECTO QUASE, romance, 1978

POÉTICA DOS CINCO SENTIDOS - O OUVIDO, ensaio, 1979

A NOITE, teatro, 1979

QUE FAREI COM ESTE LIVRO, teatro, 1980

LEVANTADO DO CHÃO, romance, 1980

VIAGEM A PORTUGAL, ensaio, 1981

MEMORIAL DO CONVENTO, romance, 1982

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS,

romance, 1986

A JANGADA DE PEDRA, romance, 1986

A SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO DE

ASSIS, teatro, 1987

HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA,

romance, 1989

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO,

romance, 1991

IN NOMINE DEI, teatro, 1993

CADERNOS DE LANZAROTE, -

Vol. 1 A 5, diários e memórias, 1994-1998

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, romance, 1995

TODOS OS NOMES, romance, 1997

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA,

romance, 1997

FOLHAS POLÍTICAS, ensaio, 1999

DISCURSOS DE ESTOCOLMO, ensaio, 1999

A MAIOR FLOR DO MUNDO, conto infantil, 2001

A CAVERNA, romance, 2001

O HOMEM DUPLICADO, romance, 2003

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ, romance, 2004

DON GIOVANNI OU O DISSOLUTO

ABSOLVIDO, teatro, 2005

INTERMITÊNCIAS DA MORTE, romance, 2005

AS PEQUENAS MEMÓRIAS, diários, 2006

A VIAGEM DO ELEFANTE, romance, 2008

CAIM, romance, 2009

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