Vida de riscos

Obra avalia como a militância influenciou a escrita do autor da bem-sucedida trilogia policial Millennium

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h07

A trilogia policial Millennium colocou o sueco Stieg Larsson (1954-2004) no mapa mundial da fama - não apenas pela legião de fãs que arrebanhou no planeta como pelo triste fato de ter morrido de ataque cardíaco pouco depois de ter entregue os originais a seus editores. A obra, portanto, tornou-se mais conhecida que seu criador.

É o que explica o longo período até o surgimento de sua biografia, lacuna preenchida por Jan-Erik Pettersson, jornalista que foi seu colega e que escreveu Stieg Larsson - A Verdadeira História do Criador da Trilogia Millennium, agora editada pela Companhia das Letras. A obra ressalta sua crítica ferrenha a organizações neofascistas, o que lhe custou diversas ameaças de morte. Sobre como essa militância influenciou a escrita, Pettersson respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Qual foi o aspecto da vida de Larsson que lhe deu mais trabalho de pesquisa?

Muito difícil de compreender foi o fato de que ele conseguiu escrever aqueles romances volumosos e ao mesmo tempo estar envolvidíssimo no seu trabalho de jornalista, além de participar de campanhas antirracistas, e escrever três romances de altíssimo nível sem ter publicado absolutamente nada até então que fosse ficção. Uma possível resposta é que ele, a bem da verdade, se dedicou a esse gênero de literatura o tempo todo, mas em pequena escala. Stieg escreveu histórias curtas para algumas revistas de ficção científica e outras, mas não tinham nada ver com sua área de trabalho. Mas mesmo assim há algo de misterioso nisso tudo que não é possível compreender plenamente.

A história da luta de Larsson contra o neonazismo é fascinante, ele pôs a vida e o trabalho em risco. Millennium é fruto de ideologias que marcaram sua vida?

Em alguns aspectos sim, mas não completamente. É preciso lembrar que ele escreveu os livros por prazer, provavelmente para se distrair de uma realidade opressiva, com excesso de trabalho, problemas econômicos na sua revista, a Expo Magazine, e ameaças de neonazistas. Mas é claro que ele incorporou muitas experiências e ideias pessoais nos livros. E ao contrário de muitos escritores de ficção, Stieg se defrontou com a violência no mundo real, o que, na minha opinião, dá credibilidade ao retrato que ele faz dela nos seus livros. Ele tinha uma postura ideológica, certamente, mas em alguns aspectos mudou suas opiniões. Quando jovem foi um extremista de esquerda, um trotskista e, mais tarde, dispôs-se mais a cooperar com pessoas de partidos diferentes. Mas havia algo de fundamental que não mudou, o fato de ele se manter sempre do lado dos mais fracos. A história de Lisbeth Salander é de fato o drama de uma pessoa desfavorecida. Mas como heroína de um romance de aventura, ela tem a possibilidade de se vingar dos opressores e vencê-los no final. Muitos oprimidos no mundo real não têm essa possibilidade.

Ele sonhava com o sucesso?

Sim e não. Sua motivação para escrever a trilogia Millennium não foi fazer fortuna ou se tornar famoso, com certeza não. Acho que ele apenas queria escrever o que tinha em mente. E depois, quando o primeiro editor que recebeu o manuscrito o rejeitou, sua reação foi tranquila. Não foi o fim do mundo para ele. Mas, por outro lado, acreditava no que havia escrito. Certa ocasião, ele e seu amigo e colega Mikael Ekman deram uma palestra sobre aposentadorias e previdência privada e Stieg disse que não estava nem um pouco interessado naquela droga. "Em vez disso, vou escrever um romance e ganhar milhões." O que em parte foi uma brincadeira, mas não totalmente, acho. Quando a Norstedts Publishers aprovou os livros e informou que pretendia fazer deles best-sellers, Stieg ficou muito contente, mas não extremamente surpreso. Ele havia lido muita literatura policial e sabia que os seus romances eram bons mesmo, comparando com obras de autores famosos.

Larsson teve a sorte de aproveitar a onda de interesse por livros de suspense nórdicos, liderada por Henning Mankell e outros?

Não diria que foi por acaso, mas sem dúvida a onda de livros de suspense nos países nórdicos foi importante. Já nos anos 60, o casal Maj Sjöwall e Per Wahlöö escreveu uma sequência de dez livros que foram pioneiros na maneira como combinavam histórias de crimes, a narrativa realista e a crítica social. Henning Mankell seguiu a mesma linha e seus livros se tornaram um enorme sucesso e quando ele ficou famosíssimo na Alemanha, muitos escritores na Suécia começaram a escrever thrillers. Claro que todo esse movimento foi importante para o sucesso de Larsson. Sem ele as editoras internacionais dificilmente se dariam ao trabalho de ler seus manuscritos. Por outro lado ele ofereceu algo que foi considerado novidade e isso numa época em que as pessoas diziam que a onda de livros de suspense nos países nórdicos desapareceria em breve. Mas não, pelo contrário, ela se tornou um tsunami.

Qual foi este toque a mais que Larsson adicionou ao realismo dos autores suecos?

Seus livros são muito realistas, minuciosos na descrição da vida cotidiana, mas tudo isso é combinado com alguma coisa de conto de fadas. Salander parece uma personagem de um outro mundo. O próprio Stieg Larsson disse que criou Lisbeth com base na famosa personagem da literatura infantil Pippi Meialonga, criada por Astrid Lindgren. Pippi vive sem os pais, tem um saco de moedas de ouro e consegue levantar um cavalo. Lisbeth Salander também é uma figura solitária, ela tem suas moedas de ouro na forma de dinheiro virtual roubado do escroque Wennerström e também consegue fazer coisas incríveis com um computador. Também nos livros policiais os vilões são presos pelos heróis e colocados na prisão (ou às vezes são mortos), mas para Salander o objetivo é diferente. Ela quer sua vingança pessoal e consegue. Neste aspecto, os romances têm mais relação com O Conde de Monte Cristo e outras histórias de aventura e vingança do que com que a literatura policial realista.

Aqueles que esperam saber quanto a trilogia tem de autobiográfico vão ficar decepcionados?

Não acho que estes romances são autobiográficos, e que, por exemplo, Mikael Blomqvist deve ser visto como um retrato do próprio Stieg. Ele não era um sujeito exibicionista que queria se expor desta maneira. Mas, naturalmente, usou elementos obtidos de sua experiência pessoal (todo autor faz isso, acredito). A revista Millennium provavelmente é um sonho de uma Expo Magazine ideal, com muito mais recursos e impacto. Quando ele fala sobre Granada, no segundo livro da série, não foi coincidência, pois participou de um movimento de solidariedade para com o país, que visitou nos anos 1980. O tema da violência contra as mulheres é muito importante, especialmente no primeiro livro (Os Homens Que Odiavam as Mulheres). Ele próprio fez uma investigação a respeito dessa violência. Quando o editor perguntou se não achava a sua descrição da violência um pouco exagerada, Stieg retrucou: absolutamente, a realidade é muito pior.

É possível especular sobre como seria se ele estivesse vivo?

Há pelo menos duas coisas óbvias, ou muito prováveis. Ele continuaria escrevendo romances. Stieg disse a amigos que planejava escrever dez livros sobre Blomqvist e Lisbeth (personagens de 'Millennium') e tinha em mente outras histórias. Também transferiu para colegas mais jovens mais responsabilidade pela condução da Expo. Mas não significa que pretendia se afastar e viver a vida de um escritor de sucesso. E não há dúvida que para ele a luta contra o racismo era sua missão de vida. Mas o sucesso dos livros lhe propiciou uma nova plataforma para isso. Stieg Larsson não era uma figura muito conhecida do público. Mas hoje, como alguém famoso, acho que ele aproveitaria todas as chances para falar dessas coisas na mídia. Li no jornal que os Democratas Suecos, partido político contra o qual Larsson sempre alertou as pessoas, numa recente pesquisa de opinião alcançou sua maior alta em popularidade, de 8,5%. Acho que Larsson estaria na TV falando a respeito, caso estivesse vivo.

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