Vida de falsificador

O holandês Robert Driessen ganhou € 3 mi falsificando obras de Giacometti; hoje na Tailândia, narra sua história

MICHAEL SONTHEIMER , DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h19

Estamos debaixo de coqueiros numa praia de areia branca. Like a Rolling Stone, de Bob Dylan, toca no estéreo; cubos de gelo tilintam nas taças de vinho branco. Robert Driessen acende um cigarro. "Este paraíso é a minha prisão", diz. Ele mora na Tailândia há oito anos. É dono de um café que fica perto do mar, mas longe da Europa. Lá, onde nasceu, é procurado por Ernst Schöller, um detetive de Stuttgart especializado em roubos de obras de arte. Driessen forjava obras do escultor suíço Alberto Giacometti. Dois dos seus cúmplices estão na cadeia na Alemanha, após ganharem mais de 8 milhões com a venda das peças falsificadas. É o único do grupo a continuar solto.

A polícia diz que Driessen falsificou cerca de mil esculturas. "Provavelmente foram mais de 1.300", afirma o artista. "Mas nunca mantive registros". De 54 anos, ele viveu mais de três décadas falsificando obras de arte, entre pinturas e esculturas. É possível que tenha lucrado pelo menos 3 milhões. E ser prisioneiro na Tailândia não é a pior coisa do mundo, afirma.

Alberto Giacometti foi um dos maiores artistas do século 20, e hoje, 47 anos depois da sua morte, é o escultor mais caro do mundo. Há três anos, a viúva de um banqueiro libanês adquiriu sua escultura O Homem Que Caminha, num leilão da Sotheby's por cerca de 7,4 milhões. Criou uma obra composta de estranhas figuras delicadas, alongadas, emaciadas, de criaturas de olhar desesperado - tão facilmente reconhecíveis quanto uma garrafa de Coca-Cola.

Acredita-se que Giacometti não tenha produzido mais de 500 peças, mas a própria Fundação Alberto e Annette Giacometti, em Paris, criada pela viúva, não tem um catálogo de sua obra, somente um banco de dados incompleto. Neste sentido, Giacometti facilitou bastante as coisas para Driessen. E também as facilitou, diz ele, do ponto de vista técnico.

"Figuras alongadas, finas, e uma superfície frágil, amorfa. Não é difícil fazer". Depois de algum tempo, conta, "os Giacomettis brotavam literalmente dos meus dedos". Ele levava de 30 a 40 minutos para fazer as figuras pequenas. Mas não se tratava simplesmente de novas moldagens dos originais. Ao contrário, Driessen contribuiu para aumentar o conjunto da obra de Giacometti - fazia os próprios moldes.

Driessen é cidadão holandês de Arnheim. Aos 16 anos, saiu de casa e começou a pintar cenas típicas da Holanda para ganhar a vida. Certo dia, um marchand perguntou se ele podia copiar as obras de pintores românticos holandeses. Dois ou três anos depois, vários marchands estavam comprando suas pinturas. Um deles foi Michel van Rijn, que mais tarde se tornou famoso como o contrabandista de arte mais bem-sucedido do mundo. Fez mais de mil quadros. "Um ou dois deles devem estar pendurados em algum museu alemão ou holandês." Lembra que um marchand vendeu seus quadros em leilões da Sotheby's e Christie's. "Eu sabia que estava falsificando obras de arte. Os marchands sabiam que estavam comprando falsos. Mas não falávamos sobre isto."

Negócio. Driessen fez sua primeira escultura de Giacometti em 1998. Depois de estudar o estilo do escultor, as assinaturas e o selo da fundição, fez uma figura alongada de gesso de 2,7 metros de altura, que intitulou Annette. Somente depois que um dos seus marchands encontrou um possível comprador, mandou fundi-la em bronze. Em seguida, recebeu vários visitantes: um marchand holandês que conhecia de longa data, Guido S., dono de uma loja de antiguidades da cidade alemã de Mainz, e um grego que morava na região alemã da Suábia. O grego apresentou um envelope com 250 mil marcos alemães; entregou ao marchand, que, por sua vez, o repassou a Driessen. Quando estavam saindo, Guido S. perguntou: "Você teria mais alguns Giacometti?".

Começou assim a grande operação de falsificação dos Giacomettis. Guido S. voltou três semanas mais tarde e desta vez saiu com 12 bronzes do escultor. Driessen recebeu 6 mil marcos alemães. Nem Guido S. nem o falsificador se preocuparam com o fato de que, meses mais tarde, a polícia achou 13 Giacometti de Driessen na casa do grego amante da arte, que estava envolvido em várias transações nebulosas. Ao contrário: iniciaram um próspero negócio, que duraria dez anos.

Conde. Durante uma de suas visitas ao marchand de antiguidades de Mainz, Driessen conheceu seu sócio Lothar S., que acrescentara o título Conde von Wakdstein ao seu nome. Lothar fora maquinista de trens na Alemanha Oriental antes de ser mandado para a prisão por contestar o sistema político. O conde cuidava das vendas enquanto Guido S. agia como estrategista da quadrilha.

Guido S. chegou a escrever um livro, que intitulou A Vingança de Diego, e do qual imprimiu 300 exemplares. O livro conta a história, em parte autêntica, em parte fictícia, de Diego Giacometti, irmão e assistente do artista, que montara um verdadeiro tesouro de esculturas. Segundo o livro, o irmão retirava "os resultados do trabalho de Giacometti, e de longas noites de luta", do estúdio e fazia moldes com eles, "e os levava para a fundição, por conta própria ou depois de consultar Alberto". No livro, Diego escondeu inicialmente as moldagens, mas depois da morte de Alberto, em 1966, as vendeu a colecionadores da Grécia, França e Inglaterra. O conde Waldstein, como contou Guido S. em sua longa história, adquirira os bronzes de volta dos colecionadores. Até o número do ISBN impresso no livro era falso. Mas, afinal, toda obra de arte falsificada precisa de uma procedência plausível.

Os sócios de Driessen se encarregavam de procurar indivíduos ricos com pouco conhecimento de arte. E foram bem sucedidos. Um bilionário de Wiesbaden, perto de Frankfurt, adquiriu 49 falsos Giacometti por 3,5 milhões. O gerente de investimentos de Stuttgart, Peter Hans Schuck, pagou pelo menos 3,7 milhões por 18 falsos. Mas a tentativa de vender cerca de 300 esculturas a dois proprietários de galerias em Nova York por 50 milhões de euros fracassou porque os americanos começaram a suspeitar.

A certa altura, Driessen teve de contratar dois assistentes para continuar seu trabalho; mais tarde, descobriu que recebia menos de um quinto do preço da compra. "Foi realmente uma deslealdade", afirmou, "porque eu era o artista, afinal de contas".

Em 2005, Driessen, a esposa e o filho emigraram para a Tailândia a fim de fugir dos invernos cinzentos do seu país. Antes de partir, Driessen queimou todas as fotos das obras de arte forjadas. Alugou uma villa enorme no Golfo da Tailândia, enquanto Guido S. continuava enviando o dinheiro para a sua conta bancária da Alemanha.

Início do fim. Driessen ainda fazia viagens regulares para a Holanda. Mas, em fevereiro de 2009, a polícia, que já estava no encalço de Guido S. e do falso conde, o prendeu por duas horas no aeroporto de Frankfurt. Quando Driessen voltou à Holanda, foi seguido por cerca de dez dias por policiais à paisana. Para evitar maiores problemas, decidiu não visitar suas duas fundições e tomou um avião de volta para a Tailândia.

No início de março de 2009, Driessen recebeu a seguinte mensagem de Guido S.: "Estou transferindo o dinheiro para a sua conta; não volte para a Alemanha". Guido S. e Lothar S. foram presos meses depois em Frankfurt, enquanto se preparavam para vender cinco falsos Giacomettis por 338 mil. Lothar S., o falso conde, havia sido descoberto por investigadores da polícia estadual de Baden-Württemberg.

O tribunal regional de Stuttgart impôs penas rigorosas. Lothar S. foi condenado a nove anos de prisão; Guido S., a sete anos e quatro meses. O processo contra Driessen continua, mas como ele não é cidadão alemão, os investigadores não podem conseguir sua extradição da Tailândia.

Em junho do ano passado, o inspetor Schöller e seus colaboradores transportaram mais de mil criações de Driessen para uma fundição na cidade de Süssen, na Suábia - as cinco toneladas de bronze resultantes serviram para fazer portas para um cliente de Abu Dhabi. Driessen viu uma reportagem da TV sobre a destruição das suas obras, mas não ficou emocionado. Ele não tem o menor senso de culpa, nem mesmo em relação às suas vítimas. "Quem acredita que pode comprar um Giacometti autêntico por 20 mil merece ser ludibriado. O mundo da arte é podre", diz, e despeja mais vinho no copo. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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