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Victoria, a missão

Os pratos se sucediam sem que se ouvisse um pio vindo da rainha

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2021 | 03h00

Na improvável hipótese de ser um dos convidados no almoço que lorde Ferdinand de Rothschild ofereceu à rainha Victoria na sua mansão de Waddesdon, Buckinghamshire, em 1890, você deveria ir preparado para uma experiência gastronômica memorável. A cozinha da mansão era famosa em toda a Inglaterra.

Como acontecia sempre que Victoria era homenageada por um dos seus súditos, a rainha e sua comitiva comeram no salão principal da mansão e os outros convidados numa sala menor, ao lado. Começando pelos pratos de entrada – sopa rarefeita e trutas en gelèe – até as sobremesas, não se ouviu um ruído vindo do grande salão. A rainha estaria gostando da comida? Não estaria gostando? Tinha vomitado? 

Os pratos se sucediam sem que se ouvisse um pio vindo da rainha. Um comentário. Um grito de surpresa ou dor. Nada. Silêncio profundo. Arroz com camarões gigantes de Málaga? Silêncio. Aspargos brancos com molho hollandaise? Silêncio. Suflê poroso de claras coberto com folhas de ouro? Silêncio. Beignets vienenses com canela de Madagáscar? Nada.

Finalmente, às quatro e meia da tarde, todos se convenceram que Victoria tinha odiado o almoço. Já fora embora havia muito tempo, fazendo questão de não agradecer o lorde nem cumprimentar o chef, que anunciou seu suicídio. Foi quando alguém olhou pela janela e viu que Victoria e seu séquito recém saíam da mansão, às quatro e meia da tarde! A rainha insistira em voltar para repetir, mais de uma vez, a codorna recheada com trufas e foie gras que era o ponto mais alto do menu. Desconfia-se até que levava algumas codornas na bolsa, para comer mais tarde, no palácio. Regozijo geral.

Mas não estou lembrando essa bobagem pelo prazer da bobagem, ou para comparar os excessos do mundo vitoriano e a nossa inconsequência no trato com a tragédia da pandemia, que ameaça nos reduzir, todos, a relíquias de outra era. Esta é uma bobagem com uma missão, a de nos levar o mais longe possível do tétrico noticiário de todos os dias para, literalmente, pensarmos em outra coisa. E acho justo terminar a bobagem com a receita para codornas recheadas da rainha Victoria, para você pelo menos não ter perdido seu tempo até aqui.

Coloque as codornas num ambiente escuro durante semanas, para engordar. Afogue-as em Armagnac. Recheie com trufas e foie gras. Coma pensando em outra coisa.

É ESCRITOR, CRONISTA, TRADUTOR, AUTOR DE TEATRO E ROTEIRISTA

 

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