Viaje no mistério deste doce olhar

Chega às telas o encantador filme do turco Kaplanoglu, vencedor de Berlim

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Estímulo. Um Doce Olhar expõe a relação do pai com seu filho gago e a tentativa de ajudá-lo a encarar as dificuldades da vida                

 

 

 

 

 

Há algo de mágico e misterioso em Um Doce Olhar. O longa do diretor turco Semih Kaplanoglu venceu o Urso de Ouro no recente Festival de Berlim. É o fecho de uma trilogia que começou com Ovo, em 2007, e prosseguiu com Leite, no ano seguinte. Um Doce Olhar chama-se Bal (Mel), no original. É o primeiro a estrear nos cinemas brasileiros - os dois anteriores passaram na Mostra de São Paulo. O curioso é que a trilogia, com elementos autobiográficos, retrocede no tempo. O personagem chama-se Yusuf. Começa adulto em Ovo e termina criança em Um Doce Olhar.

Essa viagem "para dentro", ou contra o tempo, era essencial no conceito do projeto, mas Kaplanoglu acha interessante que o espectador se valha do DVD, quando possível, para ver sua trilogia na ordem cronológica. O efeito é diferente, ele avalia, mas não acredita que chegue a mudar sua concepção de forma decisiva. O próprio Yusuf não é necessariamente o mesmo personagem. Essa complexidade dá o tom da trilogia.

Mel/Um Doce Olhar é sobre um menino gago, que tem dificuldade com a fala numa pequena cidade - uma aldeia - do interior da Turquia. O pai cultiva mel das flores. O filme tem um prólogo - um acidente - e prossegue com o menino internando-se na floresta, em busca do pai. Ele ingressa num espaço onírico, misterioso, fascinante. Talvez existam ecos de um clássico dos irmãos Taviani, Pai Patrão. No filme italiano, como sugere o título, o pai é um tirano brutal que impõe dura disciplina ao filho pastor. Inspirado na experiência real do escritor Gavino Ledda, Pai Patrão é sobre como o garoto se liberta do pai e adquire conhecimento - e uma linguagem.

O pai de Um Doce Olhar é o oposto do de Pai Patrão. É compassivo com a dificuldade do filho. Em muitas cenas do filme, ele fornece o vínculo na ligação do menino com a natureza, ensinando-lhe os nomes das flores e o mel que fornecem. Ele também estimula o garoto a superar seus limites e a encarar as dificuldades da vida escolar. Em ambos os filmes, o italiano e o turco, o mundo é primitivo. A diferença é que Kaplanoglu busca o mito. Sua floresta tem uma dimensão sonhada.

Quando o menino entra nesse universo em busca do pai, ele descobre um mundo de sensações, de cores e luzes. Mal comparando, Kaplanoglu oferece, num registro "realista", um encantamento parecido com o de Avatar, que James Cameron cria por meio de tecnologia de ponta. Perto do final, o menino recosta-se a uma árvore e fecha os olhos. Pode-se interpretar Um Doce Olhar - e toda a trilogia - como um sonho do menino. Pensando na trilogia inteira, o menino sonha que é adulto, o adulto sonha que é menino? Um paradoxo digno de A Origem, o deslumbrante filme de Christopher Nolan ao qual o de Semih Kaplanoglu vem se somar como outra das obras-primas deste ano nos cinemas da cidade.

Em Berlim, entrevistado pelo repórter do Estado, o cineasta ouviu sua interpretação de Um Doce Olhar e depois sorriu. Disse que havia feito o filme - e a trilogia - com essa intenção, mas pouquíssima gente fazia essa viagem. Preste atenção nas imagens do filme, tente decifrar seus mistérios ocultos. Principalmente, deixe-se envolver pela magia do elenco. O ator que faz o pai, o menino, um forte, outro frágil, convidam a uma das experiências cinematográficas que vão restar em 2010.

UM DOCE OLHAR

Direção: Semih Kaplanoglu.

Gênero: Drama (Alemanha-Turquia/2010, 103 min.).

Censura: 14 anos

Cotação: Excelente

 

 

 

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