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Viajar no tempo

 Se eu não encontrasse Joana talvez agora eu fosse um alto executivo, um CEO bem vestido, um atleta olímpico, um sujeito rico

Gilberto Amêndola, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 05h00

Saudade de viajar para o passado a fim de evitar os desastres de uma jornada. Pode ser uma viagem curta. Algo que me salve dessa ressaca – impedindo assim aquele último copo, aquela saideira entre amigos. Um bate-volta para evitar um e-mail mal escrito, uma palavra torta, uma cara feia, um telefonema desnecessário. Uma viagem ao passado recente para que eu prepare (para o meu eu afoito) um chá de camomila. 

Voltar uma casa no tempo para não desencanar da academia, para não desistir das aulas de guitarra ou de inglês. Pode ser uma viagem de média duração – em que eu segure minha própria mão no dia em que escolhi essa profissão. Ou ainda, grande utilidade teria, se nessa viagem eu me colocasse entre eu mesmo e Joana. Eu serviria como um obstáculo natural entre um jovem besta e um problema tão evidente.

Acidente de percurso ou destino? Amor ou água com gás? Almas gêmeas ou temaki de salmão completo com cream cheese e cebolinha? Viajar no tempo para desviar o meu caminho dos passos de Joana. E o beijo que seria o nosso ficaria suspenso por uma cadarço, feito um par de tênis atirado contra os fios de alta tensão. Se eu não encontrasse Joana talvez agora eu fosse um alto executivo, um CEO bem vestido, um atleta olímpico, um sujeito rico. Se eu não batesse os olhos em Joana, o presidente era outro. Acho que nem pandemia tinha. Gabigol era do Corinthians. Cabul não cairia. E David Bowie ainda estaria entre nós.

Sem a Joana da boca grande, das pernas longas e dos olhos vermelhos eu seria outra pessoa. Sem a Joana de voz rouca eu não saberia tudo o que sei agora. Sem a Joana eu seria uma partícula. Então, melhor que eu deixe a minha Joana em paz. 

Viajar no tempo só para entender Joana. É mais fácil evitar as caravelas, o Big Bang, o dedo de Deus...

É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ E OBSERVADOR DA VIDA URBANA

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