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Viajar e sofrer

Indico coisas que anos de estrada e de céu indicaram. Aproveite o que desejar para que seu momento no céu não se torne um inferno

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2019 | 02h00

Pego dois aviões por dia, em média, às vezes mais. Durmo em tantos hotéis que necessito, sempre, refletir alguns segundos para me lembrar de onde estou quando acordo. Nunca me aconteceu o que uma colega narrou. Tendo despertado com certa confusão espacial, ela ligou para a recepção com a pergunta constrangedora: “Que cidade é essa”? Ainda não cheguei lá, mas o futuro é longo e os lapsos mentais, um horizonte possível. 

Adquiri a “sabedoria prática”, ou seja, o conhecimento filho da repetição. Indico coisas que anos de estrada e de céu indicaram.

Aproveite o que desejar para que seu momento no céu não se torne um inferno:

a) Bagagens são, quase sempre, excessivas. Elas nascem ou da falta de prática ou da insegurança. Sair de casa é sair da liberdade de escolha do seu guarda-roupa. As pessoas despacham malas grandes, levam a pequena a bordo, adicionam mochilas, usam sacolas, somam bolsas, atrapalham-se, sofrem, aboletam-se com dificuldade e... reclamam da falta de espaço. Prática de viagem é a arte de levar o essencial. E se faltar algo? Há uma chance de você sobreviver. 

b) Refeições a bordo: diminua sua expectativa à metade, reserve 10% da metade e tente se adaptar. Em voos internos, a comida quase desapareceu. Se existe, lembre-se, não é o estrogonofe da vovó. Em trechos internacionais, o esforço das companhias é maior e, quase sempre, insuficiente. Lembre-se: mesinha de comissárias não é cozinha gourmet. Coma antes e depois. Voar não é um deleite de sentidos. 

c) Recado aos hotéis: pelo amor de Santa Marta (padroeira dos hoteleiros), tomadas ao lado da cama. Todo mundo chega com o celular e outros aparelhos quase a zero. É chance de se jogar no leito e ver as mensagens, planejar o dia seguinte, comunicar-se. Eis que a tomada está do outro lado do quarto. Tomada não é bolsa da Prada ou joia da Tiffany. Tomada é item básico como água. Colocá-las longe da cama é como instalar chuveiros distantes do box do banheiro. Campanha mundial: tomadas a mancheias, por favor! Muitas, várias e, de preferência, com buracos compatíveis ou adaptadores disponíveis. 

d) Pode ser que seja sua primeira viagem e você esteja exultante com as pessoas que ama. Nada mais natural do que fotografar, filmar, registrar tudo da sua felicidade de debutante. Porém, imagine que há uma fila atrás de você e que seu impulso de cineasta deve ser exercido de forma a não trancar a fila de saúvas ansiosas que praguejam mentalmente contra seu momento Federico Fellini. 

e) Preparar-se um pouco ajuda o fluxo. Retirar metais antes dos raios X, ter a passagem e o documento selecionados e acessíveis antes de serem pedidos, saber qual o seu lugar no momento anterior à entrada no avião. Ninguém é eterno e isso ajuda a aproveitar melhor o seu tempo e o de todo mundo. Os deslocamentos para aeroportos costumam ser longos nas grandes cidades. Crie o hábito: no carro ou no ônibus, retire o relógio, pulseiras, anéis, colares, adereços metálicos e todas as traquitanas com calma. 

f) Etiqueta básica: fone de ouvido se quiser escutar algo no seu aparelho. Isso vale para seu pimpolho, especialmente se está rodando joguinhos ou músicas infantis. Pais: tomem todos os cuidados com seus filhos, eles são uma escolha sua, não da poltrona ao lado. Não pais: tenham toda a paciência com crianças, elas são imprevisíveis e, mesmo assim, nosso futuro. 

g) Sua mochila pode ser uma arma invisível quando está nas suas costas e seus movimentos bruscos a transformam em aríete. Mesmo com cuidados extremos, podemos esbarrar em alguém. Isso acontece. Com licença, por favor, desculpe-me e muito obrigado são quatro pedras firmes que constituem a estrada da convivência educada. Paciência nos dois polos é importante.

h) Os lenços de pano saíram de moda. Despontam os de papel. Independentemente do seu gosto, dar “ré do muco” com fungadas cavernosas e comunicando ao mundo seu estranho gosto alimentar é nojento. Um dia haverá lei tornando imprescritível e inafiançável o crime de puxar muco nasal para o aparelho digestivo com estardalhaço. 

i) O espaço é apertado, está piorando e temos de conviver com um estranho em contato quase carnal. Urge sabedoria e equilíbrio. É um aprendizado e não é culpa sua ou da pessoa ao seu lado que a poltrona tenha sido prevista para lorde Tyrion da série Game of Thrones. Não é um inferno, trata-se de breve purgatório com redenção daqui a pouco. Conforme-se: há coisas piores na sua família e que não desaparecerão na próxima aterrissagem. 

j) Sim, você está ansioso e eu também. Já fui muito mais estressado no item nacional básico: o avião está chegando ao finger e todos já estão de pé. Já cometi muito esse erro e me arrependo. A diferença entre ficar de pé ou sentado esperando a porta abrir é insignificante do ponto de vista do cronômetro. 

Escrevo a crônica, como sempre, na poltrona de um avião. Penso na expressão do meu assistente Filipe, que chama tudo isso de “white people problem”, aquela questiúncula que classes médias e altas deploram como o centro do caos do mundo por falta de algo relevante para ocupar a massa cinzenta. Desemprego enorme, corrupção, violência urbana, ataque a mulheres, racismo: tudo é imensamente maior do que mochila ou tomada.

Acredito que nossa capacidade de educação e nossa civilidade prática de respeito a outros são a parte fácil da vida. Sendo civilizado, você está livre para o universo complexo dos problemas maiores. Assim, estratégia e educação ajudam a tirar peso de coisas menores e que todos possamos atender o que realmente importa. É preciso ter esperança. 

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