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Viagens entre iguais e diferentes

Trem para o Paquistão, do indiano K. Singh, e Meu Irmão, do paquistanês H.M. Naqvi revolvem conflitos étnicos

MICHEL SLEIMAN É PROFESSOR DE LÍNGUA, LITERATURA ÁRABE DA USP, TRADUTOR, POETA, AUTOR DE ÍNULA NIÚLA (ATELIÊ), O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h10

MEU IRMÃO

Autor: H.M. Naqvi

Tradução: Lucas Murtinho

Editora: Rocco

(256 págs., R$ 38,50)

MICHEL SLEIMAN

A divisão da Índia britânica em dois Estados, uma Índia hindu, a Leste, e um Paquistão muçulmano, a Oeste, acirrou o histórico conflito entre sikhs e muçulmanos na antiga região do Punjab.

Esse é o tema do clássico romance sul-asiático Trem para o Paquistão, do emblemático jornalista e escritor indiano Khushwant Singh, hoje com 97 anos. 1947, o fatídico ano da separação, foi na verdade meses da mais absoluta barbárie nos dois lados da nova fronteira. "Ambos matavam, torturavam e estupravam", escreve ele na obra. Estima-se que 1 milhão de pessoas tenham morrido em chacinas recíprocas entre sikhs e muçulmanos habitantes das fronteiras e outros dez milhões abandonaram suas casas nas condições as mais atrozes: sikhs rumo à Índia e muçulmanos rumo ao Paquistão.

Publicado em inglês, em 1956, o romance manteve acesa entre os indianos a memória recente da separação: "As feridas estão curadas, mas o veneno continua em nosso sistema", dirá Singh mais de uma vez. Longe de ser um relato sensacionalista, o romance emerge de uma escrita límpida e uma narração contidíssima, e reflete as certezas de um partidário da política laica.

Trem para o Paquistão mostra a ruptura de um mundo equilibrado, onde hindus, sikhs e muçulmanos vivem um tempo idílico em Mano Majra, aldeia fictícia nessa que será a fronteira entre os dois países. Há a casa de oração dos sikhs, a casa de oração dos muçulmanos, a casa do agiota hindu, e umas tantas cabanas espalhadas. Há a estação ferroviária, por onde passam, em horários regulares, trens que seguem ao Leste e ao Oeste. E há o Rio Sutlej, que beira a cidade, e a ponte sobre ele, por onde passam os trens. Ninguém para, ninguém desce, até que certo dia acontecem coisas: chega à aldeia um homem de estilo ocidental, o agiota é assassinado em casa, aporta um trem fantasma. A partir daí, as relações se norteiam pelo enredamento, pela intervenção, pela dualização. Em cada um dos capítulos do romance, os mesmos fatos são tomados, mas na perspectiva de diferentes pessoas e, assim, o narrador constrói a trama que caminha para um desfecho rápido e algo cinematográfico. Na tradução de Maria Alice Stock, a prosa precisa de Khushwant Singh não descora.

Na virada do século 21, imigrantes paquistaneses nos EUA, residentes ou naturalizados americanos estadunidenses, e seus descendentes americanos, pessoas como as personagens AC, Jimbo e Chuck do romance Meu Irmão podiam viver em Nova York como "bons vivants, prosadores, homens da Renascença", perfeitamente afinados àquilo que o narrador Chuck identifica como "a grande dialética global". Outra personagem do romance assevera: "Depois de passar dez anos em Nova York você era um nova-iorquino, um colono original." Nenhuma dessas pessoas, porém, depois dos atentados do 11 de Setembro, ousaria repetir tais bordões da liberalidade nova-iorquina, sem ser literal e concretamente acertada pelo bordão inquisidor de um policial. Quando AC ousou lembrar ao policial seus direitos de cidadão americano, na casa do amigo Shaman, um Gatsby paquistanês suspeito de comércio ilegal, AC, Jimbo e Chuck são presos sem rodeios, sob acusação de tramarem atividades terroristas, dando início, com isso, à trama deste premiado romance de estreia do paquistanês H.M. Naqvi, de 38 anos, lançado primeiramente em Nova York em setembro de 2009.

Cada capítulo do romance alterna episódios ocorridos antes e após o 11 de Setembro, nos quais a contraposição da narração de Chuck revela as mudanças substanciais na percepção que o imigrante tem de si como estrangeiro nas terras da América. A condução do romance nesses dois tempos da narração, que acusa em Naqvi talvez um gosto pela erudição, contrasta fortemente com o estilo mais popular de narrativa, que faz referência a ícones da cultura pop como Nusrat Fateh Ali Khan, Nina Simone e o hip-hop da escola antiga, não faltando ao cardápio mulheres de todas as raças, cocaína e o ambiente lounge de recônditos inferninhos como o Tja! do bairro Tribeca no Sul da ilha de Manhattan. Contrasta também certa pobreza de linguagem, pretendida, na fala das personagens que se aproxima bastante do coloquial, algo como o malsonante "a gente tipo pode fazer isso", ou "a gente pode tipo fazer isso", fórmulas evidenciadas na tradução de Lucas Murtinho que, em alguns momentos, soma à linguagem das personagens as gírias da fala carioca disseminadas pela televisão brasileira. Tal flutuação, porém, não tem impedido a boa recepção de Meu Irmão, saudado pelos críticos como um bem-sucedido romance de formação, um romance de imigração ou mesmo um romance que faz a crônica da cidade de Nova York.

Nos dois livros que se publicam agora no Brasil, salta à vista o conflito étnico a serviço de interesses políticos e, por que não dizer, dos interesses econômicos. A volta dos muçulmanos ao Paquistão e dos sikhs e hindus à Índia com o tempo se mostrou ineficiente para impedir o multiculturalismo que tem marcado as terras do antigo Punjab. Isso certamente marca a riqueza cultural desses países. O mesmo se pode dizer dos Estados Unidos de hoje, que 11 anos após os atentados ainda procuram pelo interno que seja exterior ao americano e ameace a paz de seu sonho. Ambos os romances podem querer afirmar que a volta para casa às vezes não nos faz mais seguros: somos melhores sendo do mundo e estando nele, conhecendo-nos e reconhecendo-nos nos nossos semelhantes e diferentes.

TREM PARA O PAQUISTÃO

Autor: Khushwant Singh

Tradução: Maria Alice Stock

Editora: Grua Livros

(224 págs., R$ 39)

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