Viagem vertical

Já posso imaginar o que alguns articulistas da imprensa brasileira vão escrever sobre o livro O Prazer dos Clássicos, de Michael Dirda, que chega amanhã às livrarias pela editora Martins Fontes. Vão dizer que Dirda confunde cultura com consumo, que trata a leitura como deleite burguês, que faz autoajuda para endinheirados, que celebra a vitória do mercado sobre a esquerda, etc... O curioso é que esses mesmos articulistas, que de vez em quando encontro nos shopping centers em meio aos "consumistas" ou "alienados" (que papo velho!), não leram quase nenhum dos livros que Dirda comenta. Crentes no socialismo democrático que os professores da USP lhes ensinaram, têm aversão - porque têm medo - à ideia de ler por prazer, não por política. E nem sequer veem que seu ressentimento é o pior dos elitismos.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Dirda, ganhador do Pulitzer por suas resenhas no Washington Post, diz que entende o senso comum que diz que os clássicos são chatos ou difíceis, mas não concorda com ele. "As grandes obras nos falam de sentimentos reais, de nossa própria confusão e de nossos devaneios." O que seu livro faz é tentar trazer autores de Lao Tsé e Homero a Italo Calvino e James Agee até o leitor atual, com textos de 3 ou 4 páginas no máximo. É o oposto de ver a leitura como verniz ou obrigação: Dirda põe ênfase na admiração que sente pela inteligência e engenhosidade dessas criações, por sua capacidade de falar com pessoas de outros tempos e lugares. Sabe que o prazer de ler esses livros é diferente de vestir uma bela roupa ou comer num bom restaurante, mas sabe também que sem cultura não há elegância que resista à primeira conversa.

Quando escreve sobre Eça de Queirós, por exemplo, nota que todas as páginas de um livro como O Crime do Padre Amaro são "divertidas e maliciosas", como quando Amaro roça joelho em Amélia enquanto diz que o bom vinho "concorre para a dignidade do santo sacrifício". É o único momento em que cita de passagem um escritor brasileiro - Machado de Assis, claro. Aliás, Eça é o único nome de língua portuguesa incluído no livro. Mas Dirda é o primeiro a lembrar vários outros excluídos, como Borges, porque não dá para colocar todos num primeiro livro. Além de suas observações, ele tem o mérito de em alguns casos lembrar partes menos lembradas das obras de grandes escritores, como a não-ficção de Henry James, como seus livros de viagem e seus ensaios literários. O que importa é ir atrás do que Dirda indica. Dificuldades vão aparecer aqui e ali e é preciso insistir e se apoiar em bons críticos. Mas o prazer recompensa.

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As bancas de jornais, por sinal, estão cheias dos livros sugeridos por Dirda, ao lado de best-sellers de autoajuda, etiqueta, negócios, vampiros e seitas. A Abril acaba de relançar uma coleção de clássicos a R$ 14,90, começando com Crime e Castigo, de Dostoievski, e seguindo por outros 29 títulos, sempre em boas traduções (as peças de Shakespeare por Barbara Heliodora, por exemplo). E com a vantagem de ter melhor qualidade de capa e papel.

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Já um livro como 501Grandes Escritores, editado por Julian Patrick (Sextante), pode até servir como referência para nomes e datas, mas não tem a levada afetiva de Dirda e trata tudo quase com o mesmo peso, de acordo com critérios de renome e não de requinte. Entre os brasileiros, além do óbvio Machado, incluem Jorge Amado e Paulo Coelho. A versão local traz uma lista de 24 outros, como Euclides, Rosa, Drummond, Graciliano, Cabral e Lima, mas não Pompéia, Nabuco, Augusto dos Anjos... O único do século 19 é Machado. Brasileiros decididamente acham que o passado é um tédio.

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Emprestei o título de um dos livros do espanhol Enrique Vila-Matas, autor também de O Mal de Montano. Seu mais recente livro no Brasil é Doutor Pasavento (Cosac Naify), muito mais para um ensaio romanceado do que para uma ficção ensaística. É a história de um escritor em busca do desaparecimento, que cita diversos outros - quase um a cada página - e tem especial obsessão por Robert Walser, um desses clássicos que o mercado editorial brasileiro ainda maltrata. (Não há um único livro dele disponível no Brasil no momento, mas há o de Vila-Matas sobre ele.) Transcreve alguns dos minicontos e aforismos do escritor suíço, de seus ensaios breves, de seu mergulho no silêncio e na loucura até a morte sobre um monte de neve. E é nesses momentos que seu livro atrai, não pela trama narrativa.

Vila-Matas lembra outros reclusos como Kafka, Salinger e Pynchon, para quem a fama era ônus, não bônus. Isso sempre precisa ser visto de maneira desconfiada. Rubem Fonseca, por exemplo, é um dos "desaparecidos" da literatura brasileira, e está sempre aí, apadrinhando jovens escritoras, sem argumentar nenhum critério técnico. Mas o que importa não é o estilo de vida escolhido pelo autor, mas o estilo da obra. São poucos, em qualquer época, os livros capazes de nos levar a uma viagem vertical, muito abaixo da superfície dos costumes. Talvez ressurjam quando as pessoas descobrirem que seu prazer vai além de consumos e ideologias.

Cadernos do cinema. Vi no avião o filme que deu Oscar para a limitada Sandra Bullock, Um Sonho Possível, de John Lee Hancock. Ela é uma decoradora de jeito ao mesmo tempo durão e bondoso e pega para criar um garoto negro muito alto e forte, "Big Mike", o que provoca críticas dos caipiras republicanos ("rednecks"), preconceituosos como só eles. Michael vai muito mal na escola e tem QI baixo, mas é excepcional no "instinto de proteção" (esses americanos e sua obsessão de medir - como Thomas Pynchon ironizou brilhantemente em Mason & Dixon) e nos esportes. Passa a ser disputado por diversas universidades, mas precisa ter desempenho mínimo nas notas, porque lá as cotas não se sobrepõem ao mérito. Com ajuda de uma tutora democrata, adivinha o que acontece? Aqui e ali a mãe adotiva se autoquestiona, mas o filme navega firme até o paraíso terrestre.

Por falar em bobagens sentimentais, preciso voltar ao assunto de Avatar x Guerra ao Terror depois de ver que elas continuam. Há uma diferença essencial entre os dois filmes: enquanto o público juvenil de Avatar torce por Jake Sully, nenhum adulto que vê Guerra ao Terror torce por William James. E nem ele se debate com algum vilão na batalha final e redentora da humanidade...

De la musique. Francis Hime, 70 anos, e Edu Lobo, 67, continuam com seu dom melódico intacto. Quantos jovens não trocariam seu futuro por uma linha como a da canção Existe um Céu, do novo CD de Hime, O Tempo das Palavras? E em Tantas Marés (maré que também é tema de Hime), seu novo CD, lançado igualmente pela Biscoito Fino, Edu Lobo apresenta Coração Cigano, que ainda por cima tem letra de Paulo César Pinheiro. Para completar, há também o retorno de Os Cariocas, com Nossa Alma Canta (Guanabara), que tem arranjos surpreendentes para clássicos como Futuros Amantes, de Chico Buarque, e Rapaz de Bem, do recém-falecido Johnny Alf. "A melodia é um mistério", disse Lévi-Strauss. Um mistério que todos conhecem.

Por que não me ufano (1). A julgar pelas pesquisas, Dilma Rousseff e José Serra chegam à campanha oficial a partir de abril em empate técnico. Ela pode apostar em continuar o crescimento, pois ainda há muita gente que não sabe que é "a candidata do Lula", e ele vai precisar de uma campanha excelente para se diferenciar dela. Os serristas na imprensa desdenhavam o nome de Dilma porque nunca recebeu um voto na vida e porque transferência de popularidade tem limite, ainda mais quando a candidata não tem carisma e seu adversário tem um patamar alto nas intenções de voto. Agora estão sendo obrigados a entender que cabe a Serra mostrar por que o eleitorado não deve optar pela continuidade.

Além disso, ela é mulher e, depois de mais de três anos de exposição contínua como tocadora de obras do governo Lula, comunica alguma experiência e determinação. Logo, se Serra quiser falar das obras que fez, da estabilidade econômica ou de programas de assistência social, não vai ter muito retorno. Deve olhar para a frente, mas isso significa falar de educação, segurança e corrupção, itens em que seu governo também é bem vulnerável. A disputa será acirrada e, imagino, dependerá bastante da percepção que se terá das personalidades, mais que dos programas. Na ausência de carisma, otimismo e bom humor podem pesar muito.

Por que não me ufano (2). Por que a retaliação comercial aos EUA por causa do algodão precisa ser na taxação de seus produtos culturais? É porque, na frase educada de Marco Aurélio Garcia, são "esterco"? Ah, não, talvez seja porque eles não podem nos retaliar no setor...

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