Viagem sonora pelos alpes

Parceria entre Osesp e Frank Shipway rende trabalho que reverencia Strauss

O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2012 | 03h09

Richard Strauss rompeu os diques, desafiou preconceitos e abriu as portas para o exercício criativo livre, condição de que hoje desfrutam os compositores contemporâneos. Quando nasceu, em 1864, Brahms tinha apenas 31 anos; ao morrer, em 1949, com 85 anos, deixava para trás duas guerras mundiais e uma nova ordenação política planetária determinada pela guerra fria entre os dois ex-aliados da Segunda Guerra, EUA e União Soviética. Viveu, portanto, em dois mundos inteiramente distintos, e no campo musical foi um dos responsáveis diretos pela transição entre um e outro. O competentíssimo orquestrador deglutiu de modo genial a revolução wagneriana em seus poemas sinfônicos, assumiu-se revolucionário na Salomé do início do século e se transformou num criador incrivelmente bem-comportado nas décadas seguintes.

Quando, entre 1911 e 1915, compôs a Sinfonia Alpina, que a Osesp interpreta de modo admirável, regida por Frank Shipway no recém-lançado CD do selo BIS, Strauss saboreava imenso sucesso nos domínios da ópera e da música orquestral. Com esta última, conviveu desde a meninice (seu pai era trompista). Escreveu, entre os 22 e 34 anos, sete poemas sinfônicos, vários deles obras-primas como Assim Falou Zaratustra e Till Eulenspiegel. O gênero lhe permitiu exercer uma liberdade até então inédita no reino da composição musical.

Dominique Jameux, autor de ótimo estudo sobre Richard Strauss, define com precisão seu talento no trato com a orquestra: "Ele integra uma geração de orquestradores notáveis, que se beneficiaram, no fim do século 19 e no início do século 20, de um instrumento, a orquestra sinfônica, que atingiu seu ponto máximo de perfeição, sobretudo quanto ao mecanismo dos instrumentos de pistões".

A Sinfonia Alpina é, de fato, um poema sinfônico, que descreve a escalada num monte nos Alpes, da caminhada iniciada no vale até o cume, e o retorno, 24 horas depois. São 23 partes descritivas claramente definidas, com cerca de 60 temas diferentes, uns um pouco mais desenvolvidos, outros só esboçados. Malcolm MacDonald, no ótimo texto do encarte, enfatiza o caráter nietzschiano da obra que Strauss chamou em seu diário de Sinfonia AntiCristo. Correto. Mas o esplendor desta "descrição" de uma aventura nos Alpes suíços - onde, aliás, ele construiu a Villa em Garmish, na Baviera onde nasceu e na qual viveria com sua amada Pauline até o fim da vida, em 1949 - nos faz esquecer profundezas teóricas maiores e embarcar numa música extremamente sedutora. A escrita orquestral exuberante, os detalhes inesperados, tudo nesta sinfonia convida a uma autêntica "viagem" sonora no momento histórico culminante deste maravilhoso animal que se chama orquestra sinfônica.

Por isso, é obra que exige muito dos músicos que a enfrentam. Um teste pelo qual a Osesp passa com distinção. Se as madeiras não decepcionam, como era de se esperar, e as cordas mantêm um nível excelente, a surpresa fica a cargo da ótima performance dos metais, com destaque para as trompas, quase sempre muito exigidas na partitura de Strauss.

O CD também traz uma obra de 1947, a fantasia sinfônica sobre a ópera A Mulher Sem Sombra. Existem várias histórias de orquestras que só se superam quando ocupa o pódio determinado regente. São raros casos de amor, como o de Simon Blech e a Sinfônica Municipal de São Paulo, que se transfigurava quando o argentino ocupava o pódio do teatro, décadas atrás.

Frank Shipway e a Osesp vivem situação semelhante. Como se pôde constatar diversas vezes em concertos na Sala São Paulo, quando Shipway está no pódio os músicos se sentem particularmente comprometidos com a performance. Felizmente o resultado deste caso de amor chega a um CD de fato admirável, que permanecerá como um dos pontos altos da caminhada da Osesp.

Crítica: João Marcos Coelho

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