VIAGEM SONORA PELA TURQUIA

Três CDs mostram criativa imersão na música clássica europeia sem perder, no entanto, o DNA milenar do país

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h09

A música em Istambul, capital da Turquia, não se reduz às dancinhas dos atores da novela global Salve Jorge. A cidade que já teve três nomes - Bizâncio, Constantinopla e Istambul - fica às margens do Estreito de Bósforo e do norte do Mar de Mármara. Estas águas separam a Ásia da Europa e a tornam a única cidade do mundo a ocupar dois continentes. Este diferencial geográfico faz dela uma centrífuga cultural onde as artes de muitas raças e lugares conviveram e se fundiram. Fundada por gregos em 73 d.C., possui riquíssima tradição musical.

Dois CDs recentes e um terceiro de 2010 mapeiam estes sons. O exotismo fica a cargo de Istanbul, maravilhoso CD de 2010 do gambista catalão Jordí Savall e seu Hespèrion XXI. Savall mistura peças instrumentais do Livro da Ciência da Música de Dimitrie Cantemir, príncipe da Moldávia que chegou à cidade em 1693. Ele tocava "tanbur", um alaúde de braço longo. O Livro reflete o que ouviu nos sultanatos e nas mesquitas e ruas da cidade. Exige improviso dos intérpretes, e instrumentos de época. Savall captura o encontro entre várias culturas musicais.

Hoje a vida musical clássica à europeia em Istambul tem dois representantes de circulação internacional. A estrela é o pianista Fazil Say, de 42 anos, nascido em Ancara. Além do repertório tradicional, que o levou a tocar com as mais reluzentes sinfônicas do planeta, já gravou jazz, improvisos e composições próprias, que misturam a tradição da música europeia e o solo folclórico de Istambul. Opositor do governo autoritário de Erdogan, foi levado aos tribunais em outubro e pode pegar até 18 meses de prisão acusado de ofender o islamismo, em tuitadas em abril, com piadas sobre a convocação à prece dos muçulmanos

Orquestrou peças para piano de Liszt e arranjou para dois pianos a sinfônica Sagração da Primavera de Stravinski. Tem vasta produção como compositor. Seu credo é liberdade. Não dá bola pra nenhum estilo contemporâneo. Say acaba de lançar um CD com a primeira gravação mundial de sua sinfonia Istanbul, em sete movimentos, contando em sons a história da cidade. A viagem sonora hipnotiza.

Já a Borusan Istanbul Philharmonic Orcuestra, lança agora o seu segundo CD, Música na Era da Máquina, regida pelo vienense Sascha Goetzel. É uma bela e instigante caminhada da orquestra de 12 anos pelo repertório de música de balé da primeira metade do século 20. Música assinada por Bartók, Holst, Prokofiev, Ravel e Schulhoff. A Borusan se sai muito bem nas obras de confronto - sobretudo na difícil O Mandarim Maravilhoso de Bartók.

Sim, os turcos também sabem tocar direitinho a música clássica europeia. Sem perder, no entanto, seu DNA milenar.

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