VIAGEM POR LEMBRANÇAS INCERTAS

Com 40 imagens, a maioria dos últimos três anos, Boris Kossoy abre a mostra Busca-me

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h09

"Na realidade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças." Esta frase do filósofo francês Henry Bergson (1859- 1941), se adapta muito bem às imagens que o pesquisador e fotógrafo Boris Kossoy persegue há 40 anos e que reúne agora na exposição Busca-me, uma série nova e inédita que abre a sua primeira individual em galeria.

Com poucos registros de seu trabalho Viagem pelo Fantástico dos anos 1970 e a maioria realizada nos últimos anos, Boris Kossoy retoma sua viagem interior e tenta de alguma maneira organizar suas lembranças. Uma forma de reunir suas memórias vagantes: "Imagens de lugares que remetem às nossas lembranças mais antigas como se fossem uma universalidade de sentimentos e buscas", nos conta durante entrevista por telefone. "Um roteiro imaginado entre muitos outros, de situações, prazeres, amores, perfumes e dores que afetaram para sempre os sentidos."

Fotografias ficções e tramas fotográficas que nos convidam a entrar nesse mundo onírico criado por Boris. Assim como a imagem de um bosque que evoca a magia das fábulas e que parece querer descortinar um cenário pelo qual iremos passear. Em seguida, as fotografias de um olho vagante, situações que se apresentam e se formam à sua frente como se a imagem se oferecesse a esta busca: "Eu busco as fotografias e acabo por encontrá-las".

Este ensaio começou a ser pensado em Madri, em 2012, ao encontrar um cartaz de uma exposição na rua, cujo nome era justamente Búscame. O termo bateu forte em seu imaginário: "É uma palavra que encanta, tem um tom romântico", explica. Ao mesmo tempo nos leva a inúmeras interpretações, um jogo de descoberta de imagens insinuadas ou, quem sabe, um chamado de desafio, até mesmo um pedido de socorro. Como escreve o autor no catálogo da mostra, que tem curadoria de Diógenes Moura: "Busca-me, território de ambiguidades e incertezas que amedrontam e seduzem a provocar o espectador voyeur das imagens, a convidá-lo para uma imersão conjunta numa viagem pelo fantástico".

E assim, por meio das 40 fotografias da exposição - peças únicas sem cópias -, também viajamos pelo mundo que ele nos abre: imagens descobertas e sim também roubadas de personagens que habitam as ruas que ele fotografou, que surpreendeu em momentos de reflexão, como uma moça observando a paisagem em Viena, ou de passagem, como um moço numa esquina de Nova York, ou então seus tão queridos manequins que há 40 anos o seduzem e parecem surgir do nada à sua frente, aparecendo numa janela em Madri ou se oferecendo na fachada de uma loja em Praga. Todos os lugares, lugar nenhum. O olhar atento de Boris Kossoy, que passeou pelas ruas, olhou através de janelas, diante de espelhos, pelo interior das vitrines, nas telas do cinema e da TV: "Estas situações me remetem ou me fazem imaginar fatos já vividos, circunstâncias familiares". É desta forma que alguns registros feitos nos anos 70 conversam com os novos em diálogos precisos, como se fossem fotografias que se reencontrassem depois de anos distantes umas das outras. "São imagens esparsas e de repente os elementos se juntam como se existisse um denominador comum: a memória sendo reincorporada", diz Boris.

E é de maneira generosa que a fotografia se oferece aos mais diversos e diferentes espectadores. Cada um criará a própria viagem e encontrará a própria memória, capaz de reviver momentos e ativar situações e percepções adormecidas. Por trás de busca-me, a palavra decifra-me.

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