Viagem no tempo

Na Espanha,teatro da época romana revive o passado com peças clássicas

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , MÉRIDA, ESPANHA, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h07

Verão na Espanha não é tempo só de praia, mas também de festivais. Em todo o país, julho e agosto são meses em que diversas regiões recebem uma intensa programação cultural. E, curiosamente, muitos desses eventos acabam sendo também a oportunidade de levar o público a revisitar históricos espaços de espetáculo.

Em Barcelona, ocorre o Grec, festival que ocupa um imenso teatro de arena, construído ao ar livre, em 1929. Em Granada, obras de dança e música são apresentadas dentro do Palácio Carlos V, prédio renascentista de 1527. O exemplo mais emblemático dessa corrente, porém, está em Mérida, uma pequenina cidade, próxima da fronteira com Portugal, que guarda um teatro único no mundo: uma construção romana, praticamente intocada, que data do ano 16 a.C.

Sede do mais longevo evento do gênero no país, Mérida realiza em 2014 a 60.ª edição do seu Festival de Teatro Clássico. Lá, para fazer jus à tradição do espaço, são encenados apenas textos antigos - criações dos dramaturgos da Grécia Antiga até William Shakespeare. Até o dia 28 de agosto, o monumental palco de pedra recebe montagens como A Ilíada, de Homero, As Rãs, de Aristófanes, O Eunuco, de Terêncio, além de uma heterodoxa versão de Medusa.

Com base nessa figura mitológica, a bailarina Sara Baras criou uma montagem que se vale da mais típica das danças castelhanas para narrar a história da mulher injustiçada pelos deuses. "É a primeira vez que faço uma obra clássica", diz ela, nome máximo do flamenco e alçada à categoria de celebridade entre os espanhóis. "No flamenco, é muito comum que se busque respeitar a estrutura e os ritmos do gênero. Não é que eu não faça isso aqui, mas o mais importante era contar essa história. Todas as mudanças foram feitas para respeitar a interpretação."

É a primeira vez que a dançarina explora tão fortemente sua faceta de atriz. "Não imaginava que poderia me apaixonar tanto assim por Medusa", considera Sara. De acordo com a mitologia greco-romana, Medusa é condenada pelos deuses depois de deitar-se com Poseidon. Privada da virgindade, transforma-se em um monstro e seu cabelo ganha a forma de terríveis serpentes.

Não só o flamenco foi subvertido nessa versão. A aparência da tragédia também. Em diversas passagens, a obra parece se aproximar mais do drama do que do gênero clássico. O público também responde de maneira peculiar, aplaudindo e vibrando com o virtuosismo dos números de dança.

História viva. Hoje, o teatro de Mérida tem capacidade para 3.500 pessoas. Perdeu parte de sua capacidade - que chegou a ser de 6.000 lugares -, mas é considerado por muitos como o exemplar mais bem conservado do mundo. Sua principal diferença em relação aos congêneres gregos são suas imensas colunas e pilastras de mármore sobrepostas e a série de esculturas que ladeia o palco. O conjunto é classificado pela Unesco como Patrimônio Mundial.

Criado por Marco Agripa, genro do imperador Octavio Augusto, o espaço esteve em funcionamento até o século 5.º, quando foi abandonado. Depois do domínio romano, a região caiu nas mãos dos visigodos e dos árabes. E o teatro só se conservou por um dado curioso: passou a ser utilizado como depósito de lixo e manteve-se intocado até 1910, quando começaram as escavações.

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