Viagem mágica pelo interior brasileiro

Paulo Freire leva para a literatura sons do sertão e da mata

Betty Mindlin ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

O novo livro do violeiro Paulo Freire prende a atenção do começo ao fim, com uma fina escrita criativa. Um romance inovador, cheio de humor, calcado nas tradições populares e indígenas brasileiras. O sobrenatural surge mais que plausível, ambientado na vida de jovens modernos, seus amores, traições, folias, travessuras em um navio, espetáculos, danças e andanças.

Lico, o narrador, num verdadeiro ritual de iniciação, faz uma viagem mágica pelo Brasil, por estímulo dos pais e do avô, preocupados com os estranhos sonhos que ele vem tendo e com sua indefinição quanto ao rumo a tomar. No início pensamos que se trata de um menino, pela proteção da família e a vida sossegada no litoral paulista, em São Sebastião, mas logo aparece a idade do personagem, um adolescente de 19 anos, cercado de afeto e compreensão em casa, num carinho que atinge o leitor e transmite um bem-estar esperançoso.

Ao longo do enredo, figuras míticas entram no cotidiano do rapaz de modo natural, embora espantosas, e vamos entrando no clima sem duvidar. Aparecem mula-sem-cabeça, corpo seco, Anchieta, boitatá, boto e muitos mais.

O tom lembra Monteiro Lobato e a convivência dos habitantes do Sítio do Picapau Amarelo com heróis gregos, personagens históricos ou dos contos de fadas, que pulam da ficção para a rotina diária, engraçadas e assustadoras, reais como nós. Na floresta intrincada metendo medo, Lico vê o Curupira castigar um caçador cruel. A mãe do herói é neta de índios goitacases, conhecedora de ervas e rezas. O avô o leva a um curandeiro, para que seja submetido a misteriosa cerimônia com famaliás lagartinhos nascidos de ovos, agora seus talismãs a invocar em apuros...

E lá se vai ele Brasis afora, com pouco dinheiro, lançado a aventuras, sem itinerários e expectativas precisas, apenas a vaga ideia de uma jornada pela Amazônia. Descoberta da música, dos instrumentos como violas variadas, dos artistas de cada lugar, de histórias e costumes antigos, muitos voltados para o além, como se ele estivesse vivendo na pele as crenças dos brasileiros, nas pegadas de um Câmara Cascudo.

Tramas. Leitora privilegiada, o texto me arrebata a valer, sobretudo a partir da chegada de Lico a Rondônia, em Pimenteiras e no Guaporé. Só eu, assim como os Macurap, os Tupari, os Suruí Paiter e alguns outros povos podemos ter o entusiasmo de reconhecer aparições e tramas mais que familiares. É o caso da Estrada das Almas com seus obstáculos aterrorizantes, como a namorada da vagina gigante. Ou da moça transformada em jiboia, na qual Lico entra para ser pintado de jenipapo - e só então, enfeitado, é amado por outra mulher que é sua paixão. Ou ainda das diabruras do Criador Leregu com o qual Lico solta a noite. Alegria de ser a única a saber que o nome da namorada indiazinha de Lico, Tiwawá, é a Estrela da Manhã dos Jabuti ou Djeoromiti...

Recriadas e reinventadas, histórias indígenas fluem que é uma graça, parte das emoções e do percurso de Lico. Abarcam um universo vasto, mas me fazem palpitar o coração os ecos das que registrei com velhinhos e velhinhas em suas línguas, em livros como Moqueca de Maridos, Vozes da Origem, Tuparis e Tarupás, ou Terra Grávida. O mais divertido é que, sem pretender ter o dom da escrita do autor, sinto como se eu mesma tivesse redigido alguns curtos trechos, parecem meu estilo e o dos índios, pois traduzem bem, em novas formas, o que ouvi de quase uma centena de magníficos narradores. Alguém poderia, imitando Cavalcanti Proença ao trilhar Macunaíma de Mário de Andrade, escrever um roteiro de Jurupari, para investigar possíveis fontes de inspiração literária de um Paulo Freire. Sim, porque se motivos indígenas podem ser encontrados neste livro, são apenas parte de um grande conhecimento que ele tem do Brasil, por presenciar, ouvir e ler. Narrativas que viram completamente diferentes das originais, num contexto atual, moderno, da sociedade tecnológica brasileira, são novelas e tramas novas.

Em outro livro, Paulo Freire compartilha com Guimarães Rosa o fascínio pelo universo do Urucuia, região na qual ficou muito tempo, aprendendo demais com seus habitantes.

Além do grande escritor, outros padrinhos protetores de Paulo e de Lico, famaliás das letras, Mário de Andrade, Raul Bopp, Darcy Ribeiro, os grandes prosadores ou poetas que pela escuta mergulharam na cabeça dos brasileiros, devem estar seguindo de longe, lá onde estão, o destino desse violeiro. O músico, que sabe incorporar ao repertório da literatura vozes do sertão e da mata, transforma sons em letras e usa cordas como teclas de computadores ou canetas-tinteiro, para o prazer da arte.

BETTY MINDLIN É ECONOMISTA, ANTROPÓLOGA E ESCRITORA

TRECHO

"Convencido pela prosa do amigo e pelo olhar desesperado misturado com a beleza...

...de sua irmã, aceitei o convite. Dois dias depois, estava em uma picape balançando em estrada de terra, no rumo da festa. Mariana, sentada entre nós dois, perguntava com detalhes da minha aventura. Quando lhe contava sobre a aparição da noite, o sonho de Jurupari, o lagartinho mamando em meu dedo, ela ria muito e dizia que não acreditava em nada disso."

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