JF Diorio/AE
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Viagem infinita de Ten Chi

Com sua proposta potente e intensa, a Wuppertal Tanztheater de Pina Bausch se reafirma como referência

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2011 | 00h00

Ten Chi (2004), que faz do Japão o seu assunto, é a sexta das criações de Pina Bausch sobre lugares. Essa série foi inaugurada em 1989 por Palermo Palermo e sua parede que desmorona, transformando seus destroços em chão de dança. Desde lá, a cenografia - sempre a cargo de Peter Pabst - mostra seu papel central: precisa ser uma imagem-síntese do local ao qual a criação se refere porque duas ou três semanas de residência são insuficientes para produzir o mesmo tipo de olhar agudo que distingue as outras obras, aquelas que fizeram do repertório da Wuppertal Tanztheater uma das principais referências da arte do século 20.

As peças sobre cidades ou países são inadequadamente apresentadas como "cartões-postais". Talvez fosse mais pertinente chamá-las de "excursões turísticas com guia estrangeiro", sabendo que esse guia, por não poder revelar a manifestação local tenta encontrar o que nela se liga com os fenômenos gerais. Mas como a radicalidade contundente que caracteriza as outras obras está ausente nessa série, seus espetáculos tendem a não ser bem recebidos pelos fãs das outras fases de Pina.

Nesse contexto, a proposta de Pabst para Ten Chi é muito potente. Uma baleia, distribuída pelo palco em três pedaços (cauda, barbatana e corcova), circunscreve espacialmente uma ilha, na qual acontece a dança. Seu corpo esquartejado dispara uma seta na questão da caça às baleias e, ao mesmo tempo, materializa uma circunscrição de espaço. E as intensidades variáveis de uma "neve" que não para de cair, mais do que remeter ao inverno, instala a irreversibilidade como o principal traço de Ten Chi.

Bailarinas de vestidos e cabelos longos e rapazes em ternos escuros - figurinos que a cia. transformou em carimbo - aqui são temperados por Marion Cito com referências à tradição e ao mundo fashion.

A estrutura é aquela que Pina Bausch veio burilando de 1973 até sua morte precoce, em 2009, e que foi chamada de dança-teatro. O palco não acaba no proscênio, pois a todo momento os bailarinos descem e sobem pelas laterais da plateia. Cada bailarino detalha o seu modo de existir no mundo pluricultural que forma esse elenco. São distintos biotipos, nacionalidades, línguas e gerações. É quase um pedaço do mundo capaz de funcionar como um espelho para quem assiste.

A aparente extensão desnecessária da obra, que dura quase três horas e tem um intervalo, só começa a ser melhor degustada no dia seguinte. Já encontramos com muitas daquelas imagens em outras peças de Pina. Em vez de classificar essa como uma "obra menor" talvez importe mais tentar encontrar o lugar preciso que lhe cabe no mosaico que Pina articulou com suas criações.

Pina Bausch Tanztheater Wuppertal

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, 5693-4000.

Hoje, 21 h. R$ 60/R$ 200

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