VIAGEM ATRAVÉS DO TEMPO

The Wooster Group, de Nova York, mescla presente e passado em seus espetáculos

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h26

Algum lugar entre o teatro e o cinema, entre a memória e o efêmero. É nessa intersecção que se coloca o Wooster Group, afamado coletivo de Nova York que vem à cidade para apresentar dois espetáculos: Hamlet, de Shakespeare, e Vieux Carré, de Tennessee Williams.

Representante do cenário off-Broadway, o Wooster tornou-se conhecido pela maneira como interage com outras linguagens, em especial a cinematográfica, em suas montagens. "Estou usando técnicas do filme para revigorar o teatro. É difícil saber se isso realmente contribui com alguma coisa, mas é muito divertido", diz a diretora e fundadora do grupo Elizabeth LeCompte. Além dos espetáculos, a mostra que acontece no Sesc Pompeia prevê uma seleção de filmes e registros realizados pela companhia.

Em Hamlet, que o público assiste de hoje a domingo, LeCompte mescla suportes e tempos. Integra, à performance dos atores, trechos filmados de uma outra montagem da clássica história do príncipe da Dinamarca. Dirigida por John Gielgud, a produção da Broadway estreou em 1964 e era protagonizada por Richard Burton. Foi gravada, ao vivo, de 17 ângulos por câmeras diferentes. Editada como um filme, estreou nos cinemas e significava, àquela época, uma nova maneira de observar o teatro.

Em sua versão, o Wooster Group empreende o processo contrário: reconstrói o espetáculo a partir do filme. Tenta reproduzir, com a máxima fidelidade, os movimentos e a interpretação daquela peça perdida no tempo. "Nossa concepção surgiu de uma conversa com essa criação anterior. A relação entre o nosso Hamlet e a produção de 1964 é como se fosse um relacionamento entre Hamlet e seu pai. É um fantasma que devemos obedecer e deixar para trás", observa LeCompte.

O espetáculo aprofunda a investigação da companhia sobre a condição de efemeridade inerente ao teatro. Tentativas semelhantes já haviam sido feitas em suas criações anteriores. Em 2003, eles remontaram As Três Irmãs, de Chekhov, fazendo explícitas menções a uma montagem do mesmo texto feita 20 anos antes. "Quando trabalho, não estou tão preocupada com o resultado", comenta a encenadora. "Mas tentando entrar em contato com alguma coisa que já se foi, que está partindo, escapando, assim como acontece na memória. Minha vontade não é só capturar essas coisas, e sim vê-las uma a uma, estar dentro delas ou hospedá-las em mim."

A relação com a memória e sua fragilidade se espraia para a outra produção que o Wooster encena aqui. Entre os dias 22 e 24, o público terá a chance de acompanhar Vieux Carré: apropriação que o grupo faz do texto de Tennessee Williams.

Declaradamente autobiográfica, Vieux Carré começou a ser escrita pelo dramaturgo em 1938, mas só seria concluída quase quarenta anos depois. Sua estreia na Broadway aconteceu em 1977. E, sem sucesso, saiu de cartaz depois de cinco apresentações.

Na obra, Tennessee trata do período de sua juventude em que morou em uma modesta pensão de New Orleans. Como seu alter ego, elege a figura de um escritor desamparado diante do despertar da sua sexualidade. Homem às voltas com sua profissão, pobreza e solidão. Mesmo ao criar os outros personagens - moradores da casa -, o autor desenha seres que não são mais do que projeções de seus medos e obsessões.

"A peça nos pareceu uma oportunidade não só de enquadrar e vivenciar memórias de Tennessee Williams - traços de suas experiências sexuais e criativas -, mas também de engajá-lo em um diálogo sobre a luta pessoal que é preciso travar para se criar alguma coisa", argumenta a diretora. "Através de sua presença - que se dá por meio do personagem do escritor -, nós somos capazes de filtrar a sua escrita, suas memórias. Até mesmo suas fantasias podem ser vistas à luz dos nossos próprios materiais e personalidade. De repente, muitas histórias podem ser contadas. E esse é o tipo de liberdade que me entusiasma."

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