Viagem aos limites da linguagem

Divagações reúne alguns dos textos experimentais de maior peso no conjunto da obra do francês Stéphane Mallarmé

Leda Tenório da Motta, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

No mais antigo estabelecimento das obras completas de Stéphane Mallarmé (1842-1898) para a coleção Pléiade da editora Gallimard, que já tem meio século, lemos que Um Lance de Dados Não Abolirá Nunca o Acaso é a última de suas prosas. Sendo a Pléiade reputada pelos cuidados dispensados aos grandes autores que canoniza, não terá sido por engano que os editores chamaram prosa, em 1945, o que depois passaríamos a ver como a própria poesia pura. Melhor pensar que Mallarmé transtornou de tal modo o poema que ele não sai reconhecível desta aventura. Aliás, foi muito em vista disso que a melhor crítica francesa da segunda metade do século 20 - Maurice Blanchot e Roland Barthes - passou a tematizar a morte da literatura. O que também não significa dizer que a literatura morreu, mas que passou a viver de sua crise. Nada mais mallarmeano que essa contorção.

Há requintes dessa mesma ordem de complicação por toda parte em Mallarmé, fato que, aliado a uma escritura no limite do legível, explica que quase nada do poeta esteja traduzido entre nós, e a quase inexistência de conhecedores seus por aqui. Afinal, dos "trezentos e cincoenta" sujeitos que Mário de Andrade nos disse que abrigava em si, um deles não apreciava obscuridades. O que não deixa de armar uma barreira contra o vão esteticismo. E o que também explica que nossos mallarmeanos - os concretistas, a quem devíamos basicamente o "estado da arte" possível, em matéria de Mallarmé, até pouco tempo tenham sido aqueles que acusávamos de não terem coração.

Nada como o tempo para passar. Se antes Mallarmé era para nós um desses objetos não pensáveis, por não caberem no subdesenvolvimento, agora, com a troca das gerações, ele se torna não apenas um assunto possível, mas um tema que passa a ser tratado em altíssimo nível, naqueles mesmos lugares institucionais em que não entrava. Já que foi no laboratório da Unicamp, no âmbito de um pós-doutorado sob a supervisão de Joaquim Brasil Fontes - hoje, um de nossos críticos mais refinados -, que Fernando Scheibe realizou a tradução deste Divagações, obra de 1897.

A recusa de Mallarmé pelos tribunais armados contra os experimentalismos não é a única razão pela qual o trabalho é "heroico", como formula Marcos Siscar, outro crítico elegante, no posfácio do livro. Ele o é também porque, como um perfeito representante dessas escolas de tradutores para as quais a operação tradutória é uma outra operação de risco, a somar-se ao lance de dados do original, ele assina o que escreve, e porque, assim fazendo, se mostra à altura da tarefa que assumiu, já que o francês de Mallarmé não é o francês. Mas ela o é principalmente porque o álbum em questão encerra algumas das peças mais cruciais do conjunto da prosa mallarmeana - se a palavra cabe, já que esta crise também é das categorias genéricas -, e aquelas mais ativas sobre a crítica francesa contemporânea.

É o caso de Crise de Verso, texto em que Barthes se apoia inteiramente, em sua aula inaugural no Collège de France para notar que a literatura é uma trapaça salutar imposta à língua, lembrando, aliás, que mudar a língua é por excelência uma divisa mallarmeana. É dessa mesma fonte que sai toda a imensa reflexão de Gérard Genette sobre as relações entre a discussão platônica sobre a adequação das palavras, dramatizada no Crátilo, e a discussão mallarmeana sobre a "falta da linguagem", em seu livro Mimologiques - Voyage em Cratylie, também completamente desconhecido entre nós.

Desencantado, por fim, Crise de Verso está chegando, na verdade, aqui, a uma segunda tradução, depois de uma primeira realizada por Ana Alencar, para a revista Inimigo Rumor, nos anos 1990. É tão mais justo que haja duas delas, agora, quanto foi aí que Mallarmé, na contramão do espírito clássico francês, acusou a língua materna de ser madrasta, notando que o criador deu à palavra "jour" (dia) um timbre escuro, enquanto a palavra "nuit" reluz. Ao que acrescentou - sempre difícil - que se a língua fosse perfeita, todo mundo seria poeta.

Assinale-se ainda a divagação O Demônio da Analogia, outra especulação em torno da deficiência do instrumento verbal, que é particularmente célebre porque o poeta a conjura associando às palavras insuficientes os sons inarticulados da música, o que significa desfuncionalizar a linguagem poética. E comemore-se, por fim, na seção Medalhões e Retratos de Corpo Inteiro, um retrato de Rimbaud que é imperdível, porque, visto por Mallarmé, que o vislumbrou rapidamente, em Paris, vindo do sul, e é cruel, o poeta continua sendo aquele garoto "com rosto de anjo no exílio" que vemos em fotografias, mas feminiza-se, de repente, e se torna "uma moça do povo, de seu estado lavadeira, por conta das vastas mãos, pela transição do quente ao frio avermelhadas de frieira".

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, PROFESSORA DA PUC-SP, É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA)

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