Viagem ao mundo de uma certa Ana C.

QUEM É

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

ANA CRISTINA CÉSAR

POETA E CRÍTICA

CV: Nascida em 1952, ela ditou seus primeiros poemas para mãe quando tinha 7 anos e ainda não sabia escrever. A vocação não foi precoce: até morrer, em 1983, produziu poemas de enorme rigor formal e erudição.

Paulo José ficava incomodado cada vez que recebia um papel assinado com as iniciais A.C.C. - naquele ano de 1982, ele recebera a missão da Rede Globo de criar uma atração que enfrentasse o sucesso do popularesco O Povo na TV, exibido pela já extinta TV Tupi durante toda a tarde. "Como corria o risco de ter a concessão cassada, a Tupi mantinha o programa no ar o maior tempo possível, a única alternativa para continuar trabalhando", relembra Paulo, que criou Caso Verdade, minissérie que, ao longo da semana, dramatizava histórias verídicas enviadas pelos telespectadores.

Integrante do Departamento de Análise de Textos da Globo, A.C.C. (que Paulo nem sabia se era homem ou mulher) criticava impiedosamente os roteiros do programa, tachando-os de superficiais, simplórios, folhetinescos e até de inverossímeis. "De fato, havia um certo exagero, pois contávamos histórias como a da mulher que tentou o suicídio pulando de um prédio e se salvou porque a alça do cinto de sua calça jeans prendeu na janela do apartamento de baixo", lembra Paulo, ressaltando que o salto mortal era mostrado na segunda-feira, mas o resgate só acontecia no capítulo de sexta.

Anos depois, o ator e diretor descobriu a identidade por trás daquelas iniciais: eram da poeta Ana Cristina César que, depois de uma temporada de estudos na Inglaterra, assumira aquela função na emissora. "Pena que foi tarde demais saber que aquelas avaliações foram feitas por uma poeta inovadora, vigorosa, original." Sim, tarde demais - Ana C., como gostava de ser chamada, suicidou-se em 1983, atirando-se do oitavo andar pela janela do apartamento dos pais, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. "Foi premeditado: como estava vigiada por conta de outras tentativas, ela foi ao banheiro e, nua, ensaboou-se toda para então correr em direção à janela, sem que ninguém conseguisse segurá-la", lembra Paulo. A mulher que estilhaçou a janela, criando cacos indecifráveis, estava com 31 anos.

Expoente. O diálogo que ficou entalado, a conversa que não teve com a poeta inspirou o ator a criar um espetáculo, Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César, que estreia sábado, no Sesc Santana. Paulo José divide a cena com sua filha, Ana Kutner, e, juntos, relembram poemas, observações, trechos de cartas, comentários que marcaram a vida de Ana C. - considerada uma das expoentes da geração dos anos 1970, ela não fazia concessões. Tanto escrevia palavras ríspidas como surpreendentes, que apontavam para uma descrença na vida mundana, mas uma esperança na eternidade. A existência, para Ana C., despontava como um estágio intermediário, marcado por feridas, mas que antecipava um conforto reservado no porvir.

"Ao ler sua poesia, é possível entender seu desespero", conta Paulo, que criou um interessante jogo lúdico para apresentar a vida e a obra da poeta. Em cena, Ana Kutner abre uma mala de onde tira cartões-postais e mostra para a plateia. "São lembranças de momentos importantes, marcantes", explica o ator, também encarregado da direção. Aos poucos, a atriz abre novas gavetas, de onde retira lembranças da infância, quando ditava poemas para a mãe transcrever; da juventude, marcada pela paixão por poetas como Charles Baudelaire e Manuel Bandeira; e finalmente da fase adulta, quando a urgência em viver se traduzia em versos viscerais como:

"Pergunto aqui se sou louca

Quem saberá dizer

Pergunto mais, se sou são

E ainda mais, se sou eu"

São muitos os enigmas apresentados pelo espetáculo, que desponta como um quebra-cabeça em que nem todas as peças são oferecidas ao público. Paulo conta que teve a ideia de encenar a poesia de Ana C. há cinco anos, quando lhe foi entregue uma peça de um ato, que tratava do epílogo da vida da poeta. Em seguida, o projeto cresceu e logo ele foi apresentado a um trabalho escrito por Maria Helena Kühner, em 1996. Finalmente, Um Navio no Espaço ganhou uma nova feição dramatúrgica a partir das alterações promovidas por Walter Daguerre, que criou um papel a ser vivido pelo ator.

"Eu interpreto a mim mesmo, a partir do curto e distante relacionamento que mantive com Ana C.", conta Paulo. Assim, quando o público entra no teatro, encontra o ator já posicionado em uma mesa, colocada no nível da plateia e abarrotada de livros, cadernos de anotações, revistas. Ele divaga sobre fases da curta trajetória da poeta. "Seria uma inserção no mundo real, uma vez que, no palco, está o nível imaginário, ficcional, lúdico." Uma tentativa, segundo ele, de tentar entender a mulher que vivia atrás do mito.

Vazio. Não há, aliás, quase nenhum cenário: um palco branco e limpo recebe a personagem que passeia pelo espaço preenchido por palavras e ações. O ato de escrever também é reproduzido em cena, com videografismos e animações criados por Rico e Renato Vilarouca, que recriam a forma como Ana C. desenhava, datilografava e até rascunhava à mão, valendo-se de uma letra miúda mas determinada. É a "presença viva" de uma escrita produzida por uma natureza febril.

Durante a temporada no Rio, Um Navio no Espaço foi visto por diversos amigos da poeta, que, emocionados, apresentavam cartas ou bilhetes deixadas por ela. "Eram momentos muito fortes, que traziam Ana de volta ao nosso meio", conta Paulo, lamentando apenas uma ausência: a da escritora e editora Heloisa Buarque de Holanda. "Eram muito amigas e acho que Heloisa não suportaria a emoção."

FLERTES LITERÁRIOS

O Padre e a Moça

Paulo José é o padre atormentado no filme de Joaquim Pedro de Andrade (1966) inspirado em poema de Carlos Drummond.

Macunaíma

Novamente sob a direção de Joaquim Pedro, em 1969, o ator vive o herói sem nenhum caráter criado por Mario de Andrade.

Policarpo Quaresma, Herói do Brasil

Em 1998, Paulo Thiago dirigiu a adaptação do romance satírico de Lima Barreto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.