Viagem à unidade e ao caos literário

Coletânea reúne textos do italiano Claudio Magris sobre escritores que tratam das contradições da existência

Aurora F. Bernardini,

21 de setembro de 2012 | 19h00

A literatura é uma viagem contínua entre a escrita diurna, em que o autor se bate pelos próprios valores e deuses, e a noturna, em que um escritor escuta e repete o que dizem os seus demônios, os duplos que habitam no fundo de seu coração, mesmo quando eles dizem coisas que desmentem os seus valores. A literatura é, também, uma descida aos Infernos. É assim que o crítico Claudio Magris (Trieste, 1939) - que de uma forma e de outra tem o condão de saber agradar a seus leitores, entremeando fatos, considerações e momentos biográficos -, termina seu livro, Alfabetos - Ensaios de Literatura (2008) que acaba de ser lançado no Brasil, onde o autor já é conhecido por seus premiados Danúbio (1986) e Microcosmos (1998), entre outros trabalhos.

A obra é uma coletânea de ensaios produzidos ao longo de uma década, publicados principalmente no Corriere della Sera - jornal no qual há anos ele assina uma coluna literária - ou em outros veículos impressos, sendo os poucos textos mais longos prefácios ou apresentações especiais de livros que vêm da Europa (especialmente a do Leste) à América (especialmente a do Sul), do Oriente Médio à Escandinávia, da África à Rússia.

Foi com um compatriota que Claudio começou a viver seu destino de leitor, sua "odisseia literária" - como explica a tradutora Maria Célia Martinari no prefácio - com seu primeiro livro lido, aquele que haveria de abrir e orientar o percurso de suas leituras: Os Mistérios da Floresta Negra, de Emilio Salgari.

Esse autor, como mais tarde Rudyard Kipling, Jack London, Alexandre Dumas, Daniel Defoe, R.L. Stevenson - por sinal, presentes na coleção Terramarear, que encantou gerações de adolescentes, mesmo no Brasil - ensinaram-lhe "o significado da unidade da vida e a familiaridade com a variedade de povos, hábitos, costumes diversos, mas vividos como diferentes manifestações do universal-humano", para além de suas próprias convicções. Prenunciaram-lhe que a grande literatura "foge das teias de qualquer classificação, fazendo irromper o seu sentido anárquico e insondável a quem tente reduzi-la à ordem" e que a grande viagem do indivíduo é a aventura do espírito.

E assim foi se configurando a experiência de Claudio, sobre a qual também escreve: os grandes poemas épicos e as sagas que narram a criação de mundos e de nações, os trágicos gregos, Shakespeare, Buddha, Zhuangzi, o Antigo e o Novo Testamento, Tolstói, Melville, Sábato, Guimarães Rosa... todos eles, apesar das inevitáveis quebras, mostrando que a existência tem um sentido, uma unidade.

Existe, contudo, o outro lado, o que Magris definiu como "noturno". Em primeiro lugar, Ibsen e Kafka, revelando-lhe o contrário, "a insuficiência ou a irrealidade da vida, a odisseia do indivíduo que não volta para casa, mas se perde, desagrega, experimentando a insensatez do mundo e a intolerância da existência". E aí vêm O Homem do Subsolo, de Dostoiévski, Bartleby de Melville, Wakefield de Hawtorne, Céline, Canetti, Conrad, etc.

Existe também uma terceira margem, onde não é necessário escolher ideologicamente entre vozes contrastantes: pode-se, simultaneamente, admitir ambas. Aí vêm Singer, os grandes humoristas, Cervantes, Sterne, Dickens, Goldoni, Gadda, Svevo, Musil, Laclos, Flaubert e, last but not least, os mestres ensaístas: o jovem Lukács, o italiano Carlo Michelstaedter e, em particular, Max Weber.

Uma grande vantagem de Magris, crítico consagrado, professor de filosofia e escritor, é que é ele quem escolhe o objeto de seus textos, daí a coerência das suas apresentações: Carlos Fuentes, outro amante de Salgari, George Steiner e sua Gramática da Criação, Walter Benjamin em Melancolia e Modernidade, Friedrich Schiller e a Modernidade anticlássica, e mais os nórdicos, os chineses, os africanos...

No entanto, na originalidade dessas escolhas se escondem muito segredos. Alguns vêm à tona e se revelam como convicções que o autor persegue, mitos pessoais, muitas vezes. Em Philemon, Falsário e Mártir, para dar um exemplo, Magris investe contra a interpretação corriqueira de Pirandello, segundo a qual cada um é apenas uma série de máscaras, sendo sua identidade aquela que acredita ver no outro - para invocar Kurosawa (Kagemusha) ou Montanelli (Della Rovere), que souberam dar à máscara uma transcendência - "uma verdade da própria pessoa que vai além de toda ficção e de todo papel".

Às vezes, essas convicções parecem teses (wishful thinking?) que o autor defende, tipo: "Todo verdadeiro amor é conjugal, é paixão que se encarna em vida compartilhada", ao falar de Bettina Brentano em A Menina no Espelho; "Havia rejeitado o comunismo, mas sem renegar o socialismo, sem uma dose do qual, provavelmente, é impossível qualquer concretização do humanismo", comentando a respeito de Eduard Goldstücker, presidente da Associação dos Escritores durante a Primavera de Praga, em Praga ao Quadrado. Suas ponderações, entretanto, são sempre de uma atualidade profunda e percuciente. Como se lê nesta passagem: "De Hegel em diante, a filosofia se tornou outra coisa. Tornou-se - parafraseando as suas palavras - ‘o próprio tempo apreendido com o pensamento’. Com o precipitar cada vez mais veloz do tempo e dos eventos, tal concepção se radicalizou ao extremo: a sabedoria se torna mera compreensão intelectual do que ocorre e que tem, sim, necessidade de conduzir à clareza e à consciência (com a ajuda do filósofo, técnico encarregado dessa função), mas que tem sempre razão e não tolera juízo de valor". Dia na noite.

AURORA FORNONI BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA LITERÁRIA

ALFABETOS: ENSAIOS

DE LITERATURA

Autor: Claudio Magris

Tradução: Maria Célia Martirani

Editora: UFPR

(452 págs., R$ 58)

 

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