'Viadutos': o paralelismo a partir do quintal de Dani

Uma das primeiras letras que a cantora Dani Gurgel se lembra ter feito para uma música já existente é "Talvez Humana", gravada pela primeira vez no DVD "Viadutos". A música nasceu por inspiração da mãe, Debora Gurgel. Mas não somente. Em 2003, a pianista lançou com Itamar Collaço, no contrabaixo, e Pércio Sapia, na bateria, o disco "Triálogo", mesmo nome da banda. "Talvez Humana" está lá. E é surpreendente o que essa música transmite, sem letra, e a relação que Dani fez, ao escrever a letra. "Paralelamente à música, desde cedo eu escrevi muito, mas muita prosa, nada de poesia. Até reflete nas minhas letras, que tem um quê mais de crônica que prosa e poesia."

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

24 de dezembro de 2010 | 20h43

Também fez isso com "Neneca", a partir da música feita por Debora que ainda não tinha nome. "Cada música já tem uma sonoridade e acho, também, que o fato de ser musicista, muito tempo antes de começar a escrever, ajudou a conhecer a melodia antes da palavra", explica, em outro paralelismo, de volta a Elis Regina e, especialmente, Speranza Spalding, Mônica Salmaso e Flora Purim. "Normalmente, quando eu pego uma música praticamente pronta para fazer letra, fico dias, semanas, pensando o que a música já diz. Porque não sou eu que vou forçar uma música dizer alguma coisa que não esteja apta a dizer. Então eu fico ouvindo, pensando o que essa música tem cara, o que essa música já diz, essa melodia tem som do que?"

A ficha de "Neneca" caiu em um almoço de domingo com a família. "Tem um pedaço que tem o contracanto. E ficava pensando: isso tem uma cara de bagunça, de duas pessoas falando ao mesmo tempo, mas não pode ser uma briga. Parece um almoço de família da minha casa que não são duas pessoas, são 20 pessoas falando ao mesmo tempo." E "Da pá Virada"? Novamente, é Debora por Dani, Dani por Débora.

Não é à toa que, entre as 21 músicas do DVD está a prova definitiva sobre como ela consegue cantar do jeito que canta, compor, e aglutinar talentos. Em "Sinceramente", no bônus do DVD, gravado na sala de Dani, música inédita dela com Edu Luke, ela revela: "Na verdade, não sei falar de algo que não tenha vivido", começa a cantar. "Pra ser sincera, eu falo do meu quintal. E torço para que o teu se pareça."

Ela é Elis, Speranza, Mônica, Debora, Flora? A letra de Breno Ruiz para a música de Dani Black, "Samba do Jazz", gravada por Dani Gurgel no disco "Nosso", explica. Dani Black veio com a música pronta e pediu a letra para Breno, que se diz poeta bissexto, ainda mais porque diz que o seu "lado poeta fica aniquilado" ao lado de Paulo Cesar Pinheiro, seu parceiro. Para escrever a letra, Breno se lembrou de uma entrevista de Tom Jobim, em que ele faz uma ironia após uma pergunta de um jornalista, que sugeria que a Bossa Nova era influencia do jazz americano. "A bossa nova é o jazz? Ele ri, diz o ''jass...''", lembra Ruiz, cariocando o "s".

"A bossa nova é reelaboração do samba-canção, José Ramos Tinhorão que não me escute! (risos) É o samba-canção mais sofisticado. E não quis dizer, necessariamente, da importância história do Tom. Mas, pra mim, o Tom é um sambista, não tem como não ser. Você pega mesmo as músicas mais elaboradas. Bicho! Aquilo é samba! Chega num ponto que não interessa mais quem inventou. Era a ideia da letra (Samba do Jazz). Porque aparecem pessoas, em momentos muito diferentes, que tiveram um insight que levou um tipo de melodia similar, criando paralelismo."

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