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Sucesso de O Palhaço abre uma nova perspectiva para o cinema brasileiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h07

Pense nos grandes momentos do cinema em 2011. O garoto olhando no fundo dos olhos do monstro para reencontrar o olhar da mãe em Super 8, de J. J. Abrams. Qualquer cena de Woody Allen com Marion Cotillard em Meia-noite em Paris. A sinceridade estampada no rosto de Cécile de France quando ela fala com o garoto da bicicleta, no filme dos irmãos Dardenne. O esplendor da Toscana filmada por Abbas Kiarostami em Cópia Fiel. A luminosidade do corpo celeste em choque com a Terra, no momento em que o menino consegue restaurar a noção de família, unindo as irmãs em Melancolia, de Lars Von Trier. Justamente a famílias fissurada de Poesia, do coreano Lee Chang-dong, e a avó que se reconstrói. E, claro, a cena em que o palhaço Paulo José, depois de aparentemente haver sido enganado pela amante jovem, a dispensa e manda embora em O Palhaço, de Selton Mello.

Pode ser, leitor/espectador, que você tenha outras cenas para destacar, e é bom que assim seja. O cinema é cada vez mais aceito e entendido como uma construção do público. O diretor, o 'autor', pode colocar não importa o quê nas suas imagens, mas é o olhar do outro que faz a arte. Essas são algumas imagens que marcaram o cinema no ano que se encerra. Você poderá ter outras. Acrescente as suas. Mas vamos ficar com o filme de Selton Mello. Há exatamente um ano, no finalzinho de 2010, o mercado estava eufórico com o desempenho de Tropa de Elite 2, de José Padilha, que haveria de ultrapassar o recorde histórico de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, e com mais de 12 milhões de espectadores se converteu na maior bilheteria de todos os tempos no cinema do País. Neste final de ano, é ainda o mercado que celebra uma cifra talvez mais modesta, mas tão importante ou até mais.

Numa entrevista que deu ao Estado quando o repórter visitou o set de filmagem de Billi Pig, o novo José Eduardo Belmonte, Selton Mello, que faz o próprio Billi, falou que ambos, Belmonte e ele, haviam iniciado uma cruzada em defesa da terceira via para o cinema brasileiro. Foi um debate que começou na França, proposto por Pascale Ferran, a autora de Lady Chatterley, adaptado do romance de D. H. Lawrence. Em seu discurso de agradecimento do César, Pascale disse que o cinema não poderia ficar refém de duas tendências - o filme radical de autor, o miúra, que ignora o público, e o outro que, de olho na bilheteria (os blockbusters), trata o espectador como idiota. Um cinema exigente, inteligente, e outro descerebrado. Tinha/tem de haver algo intermediário.

A terceira via mostrou-se viável quando O Palhaço, segundo longa de Selton Mello como diretor, ultrapassou a barreira do milhão de espectadores. Na verdade, o filme já fez 1,4 milhão e ainda não esgotou seu potencial. Produzido pela mineira Vânia Catani, da Bananeira Filmes, O Palhaço é um filme independente e sensível, que poderia ter tido o lançamento pequeno que o mercado invariavelmente reserva para as obras com esse perfil. Ocorre que a distribuidora Imagem resolveu apostar. Lançou O Palhaço com cerca de 200 cópias, consciente de que havia um público interessado nas emoções retratadas pelo ator e diretor. Como consequência, e sem ceder em nada seus princípios estéticos, Vânia e Selton viram seu filme miúra erigir-se em blockbuster.

Quantos filmes brasileiros não poderiam ter feito essa ponte se suas distribuidoras tivessem apostado alto? A própria Vânia arrisca. Ela acha que Os Narradores de Javé, de Eliane Caffé, tinha o mesmo perfil, mas reconhece - o título não ajudava e a distribuidora também não apostou. O cinema brasileiro muitas vezes só precisa de um empurrão para atrair seu público. Ademar Oliveira, das redes Arteplex e Unibanco, sabe disso. Ele tem ajudado a segurar muito filme brasileiro bom, mas as condições de mercado às vezes complicam muito. Vânia Catani sente-se bem. "Gosto mais de filmes que de dinheiro. Não estaria tão feliz se, para ter um milhão de espectadores, eu tivesse de fazer um filme diferente dos que gosto de ver."

O Palhaço já fez história. Outros filmes poderão fazer. A terceira via é possível, no Brasil e no mundo. Super 8 é um blockbuster autoral, Woody Allen é puro cinema autoral. Pedro Almodóvar, pois não se pode esquecer de A Pele Que Habito, é 'o' autor. Mais uma cena para ficar na lembrança. Elena Anaya olhando a foto daquilo que foi. Grandes momentos do cinema em 2011 construíram-se com trocas de olhares. Pois, como dizia o poeta Nicholas Ray - homenageado com uma bela retrospectiva -, o cinema é a melodia do olhar e tanto pode ser em filmes feitos com tecnologia digital como naqueles que ainda utilizam o bom e velho celuloide para sonhar acordado.

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