Veteranos incansáveis

Laura Ballance, do Superchunk, fala sobre a banda, o mercado fonográfico e a sua influente [br]gravadora Merge Records

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2011 | 00h00

A última vez que Laura Ballance tocou no Brasil, teve de dividir um camarim com um sem-teto e tomou choques em quase todos os nove palcos por onde passou. Desde então, a baixista e sua banda Superchunk, percursores da mescla explosiva de distorção e melodias açucaradas que se diluiu em pop punk, gravaram menos, mas não amoleceram. O ótimo Majesty Shredding, primeiro disco em nove anos, retorna com força às raízes cruas e DIY (faça você mesmo) de um som que enveredou para o rock de texturas trabalhadas e profundidade lírica no fim dos anos 90.

No ano passado, em show dos 21 anos da Matador Records, mostrou que depois de duas décadas a banda ainda ferve com intensidade juvenil. Mas mesmo durante o descanso, Laura e o vocalista Mac McCaughan não passaram despercebidos. Os dois viram a Merge, gravadora que abriram no fim dos anos 80, despontar como um dos selos independentes mais respeitados da última década. Só o primeiro time da casa, com Spoon e Arcade Fire no ataque, teve impacto insofismável no indie rock de 2000 em diante. Da Carolina do Norte, por telefone, Laura conversou com o Estado sobre o selo, a retomada do som original e a vinda do Superchunk ao Brasil, em maio, para a Virada Cultural.

Como é voltar a fazer, aos 40 anos, um som impulsionado por energia adolescente?

Isso sempre será inseparável do Superchunk. Embora nossos últimos álbuns tenham fugido disso, ao vivo sempre tocamos as músicas antigas. Portanto, nunca me senti distante dessa energia. O novo disco saiu assim porque ficamos um bom tempo sem gravar e não estávamos sob pressão de crescer ou retomar as direções do último trabalho.

Incomoda a vertente do rock que vocês criaram ter virado "carne de vaca"?

Bem, muitos dos elementos daquele som entram e saem de moda já há um tempo. Muitas bandas se inspiraram em nós, na era que nos sucedeu, e ganharam bastante dinheiro. Mas é um processo natural.

E para onde foi o Superchunk, musicalmente, antes de voltar agora ao som original?

Sinto que em Heres To Shutting Up, o novo disco, desenvolvemos uma sonoridade que teria evoluído se não tivéssemos parado de gravar. Mas isso ficou como um afluente de nossa história que não tenho certeza de que iremos perseguir.

Como surgiu a Merge?

Parecia uma ideia divertida na época. Havia tantas bandas boas em nossa cidade e nas redondezas da Carolina do Norte, mas muitas começavam, faziam alguns shows e acabavam sem nenhum tipo de registro. Então tivemos a ideia de lançar fitas K7 e singles de bandas que achávamos legais. Na época, o mercado recebia menos discos. Então, um distribuidor pequeno de Chicago ??ou da Califórnia tinha interesse em comprar algumas centenas de singles feitos por uma banda obscura da Carolina do Norte. O que é loucura, se pensarmos como as coisas acontecem hoje em dia. Há tantos discos sendo lançados que o mercado inunda e fica mais difícil para os distribuidores se arriscarem.

Quando a coisa ficou séria?

Começamos em 89. Em 92, o dono de uma gravadora de Chicago nos pediu um disco inteiro, o que foi um grande passo. Crescemos devagar, lançamos discos do Superchunk. Aí fizemos um box set do Magnetic Fields chamado 69 Love Songs. Produzimos 5 mil cópias, mas a demanda foi maior do que prevíamos.

E como vocês descobriram o Arcade Fire?

Um dos fãs que seguiam o Superchunk em caravana tinha montado um estúdio. Ele gravou as primeiras fitas do Arcade Fire, tocou bateria para eles por alguns anos e nos mandou algumas demos, coisas que sairiam no disco Funeral. Ouvíamos coisas boas sobre eles, mas nunca tínhamos visto o grupo ao vivo. E quando decidimos contratá-los, eles disseram: "Estamos felizes que vocês gostaram do nosso som, mas queremos que nos vejam tocar". Então eu respondi: "Pode deixar, faremos isso depois", mas eles não estavam de brincadeira: pegaram o carro e vieram de Montreal até aqui (Carolina do Norte). Depois tocaram num inferninho tão pequeno que o Win Butler quase não coube lá dentro. Foi incrível.

Muitas bandas que você lançou definiram a música da última década. Como é, para um músico, ter de canalizar a criatividade de um jeito mais burocrático?

Escolher o disco certo e descobrir como fazê-lo chegar às pessoas certas é uma arte. Tudo que lançamos reflete o nosso gosto. E a Merge não tem um som próprio. Eu e Mac somos ecléticos e acreditamos em todas as nossas bandas. Tentamos ser uma gravadora cujos fãs podem comprar qualquer disco novo porque confiam em nosso gosto. Não lançamos algo só porque sabemos que venderá bem. Isso seria uma traição.

Como foi a última turnê pelo Brasil?

O primeiro show foi num galpão abandonado na periferia de São Paulo. No camarim, tínhamos de dividir o espaço com um mendigo que morava lá havia algum tempo. As privadas transbordavam com excrementos e a fiação era ridícula: passava pelo teto do lugar e chegava ao palco por uma gambiarra que eu nunca tinha visto. Parecia coisa do fim do século 19. E fui eletrocutada em quase todos os shows que toquei aí. Mas a galera ia ao delírio, sabiam as músicas de cor e pulavam freneticamente. Quando você faz parte de uma banda, essas coisas te fazem lembrar a razão pela qual você toca. Posso me sentir péssima às vezes, posso passar mal com a comida ou tomar um choque cada noite, mas esses momentos fazem tudo valer a pena.

A VISÃO DE LAURA

Arcade Fire

Os vencedores do Grammy de melhor álbum de 2010 consolidaram a reputação da Merge em 2004, quando o disco Funeral se tornou um marco na história do rock.

Spoon

A banda texana havia sido demitida pela Elektra quando Laura e McCaughan assinaram o contrato que deu origem a Kill the Moonlight e outros discos.

Teenage Fanclub

Os discos da banda escocesa lideraram o power pop revival dos anos 90.

Camera Obscura

Indie pop de alto nível lançado pela Merge nos EUA, em 2004.

Caribou

O excelente produtor Dan Snaith define vertentes do pop eletrônico em seu disco Swim.

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