Vestígios do Corpo em território sagrado

Um monte de areia e pedras de arenito rachadas em cima de uma mesa/plataforma/chão de 2,5 m x 3 m, que se coloca como um intervalo (?) / uma ligação (?) entre duas imagens gigantes (de 6 m x 2,40 m cada uma) dos lugares onde a pesquisa aconteceu (Santa Catarina). A montagem em vídeo foi realizada por Leandro Lima com as fotos que Ding Musa fez usando time lapse: fotografias da mesma imagem com um certo intervalo de tempo entre elas.

Análise: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

A cenografia de Renato Bolelli Rebouças remete para a amplidão dos espaços onde se encontram os sambaquis, locais sagrados de sepultamentos indígenas pré-históricos. Esta mesma amplidão também guia o desenho sonoro que Lívio Tragtenberg produziu, a partir do som do vento e dos pássaros daqueles locais.

Um ventilador vai "escavando" a areia lentamente, até revelar o "sepultamento" de Marta Soares - vestida nas cores da areia e das pedras que, então, continuam a cobri-la, mesmo depois dela "desenterrada".

A morte como um limiar não é assunto novo para ela. Acompanha, com variadas formas de presença, seus trabalhos anteriores (Les Poupées, Formless, O Homem de Jasmim, O Banho). Mas é nesse Vestígios, que acaba de mostrar no 4.º subsolo do Sesc Pinheiros, dentro do Projeto Solos Urbanis - Fora do Palco, que Marta Soares a explicita como questão.

Voltando ao solo, depois de haver interrompido, no ano passado, com O Corpo Que Não Aguenta Mais, a sequência que vinha realizando, agora consegue se pôr sozinha, debaixo da areia e das pedras e, ao mesmo tempo, lá estar por todos nós, que cobrimos estas mortes com nosso silencioso descaso. Mas serão somente as mortes desses índios que desapareceram há milhares de anos, ou de tantos outros - no sentido do "outro" da alteridade que buscamos apagar na nossa ignorância de que a diversidade é a garantia da vida?

A monumentalidade não diz respeito somente aos espaços agigantados das distâncias áridas e longas que ligam um sambaqui a outro. Vestígios é, ele próprio, de uma monumentalidade emocionante, com a discussão seca, sintética, aguda e contundente que distingue os discursos capazes de nos sacudir da dormência que embrutece nossa percepção. Ao trazer esses sambaquis para a visibilidade, Marta Soares nos leva a refletir sobre muitos outros limiares demarcados pela morte: o das minorias, o do abandono, o da solidão. O sagrado dos funerais, dos quais restam somente aqueles rastros, está, de alguma forma, naquela imensidão constantemente redesenhada pelo vento e pelos pios de pássaros que Lívio Tragtenberg trouxe para o desenho sonoro que compôs. Embora seja a presença artística de Richard Smithson que ecoa nessa obra, é o entendimento proposto por Spinoza para Deus como natureza que a organiza.

VESTÍGIOS

Sesc Pinheiros. 4º Subsolo (50 lugares). Rua Paes Leme, 195, telefone: 3095-9400. 4ª e 5ª, às 21 h; 6ª, às 17 h e 21 h. R$ 2,50 a R$ 10. Até 30/7.

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