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Vestígios de vida em Ishiguro

Não Me Abandone Jamais transforma livro do escritor japonês em linguagem anti-MTV

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2011 | 00h00

Escritor inglês de ascendência japonesa - nasceu em Nagasaki, mudou-se criança com a família para a Inglaterra -, Kazuo Ishiguro é um autor singular. Em princípio, não seria "cinematográfico". Seus livros são tristes, não raro depressivos. Configuram narrativas lentas. E, no entanto, Resíduos do Dia virou filme de James Ivory - Vestígios do Dia -, o melhor do diretor, e Não Me Abandone Jamais deu origem ao filme homônimo de Mark Romanek, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. O próprio livro está sendo reimpresso pela Companhia das Letras. Ishiguro também escreveu Quando Éramos Órfãos.

Todos esses títulos configuram alguma coisa. Abandono, solidão, vidas perdidas (na maioria das vezes, roubadas). Logo na abertura de Não Me Abandone Jamais, o leitor do livro é informado de que ele passa na Inglaterra, no final dos anos 1990. O relato é feito na primeira pessoa por uma "cuidadora". O filme tem algo de fantástico. Seria, ou é, uma ficção científica retrô, como Blade Runner, o Caçador de Androides, destituída dos elementos espetaculares e de ação e aventura do cult de Ridley Scott. Nessa Terra (de ninguém), acompanhamos o trio que, na idade adulta, será interpretado por Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley.

Percorre o filme - como o livro - a lembrança de Hailsham, onde foram criados. Hailsham não é um orfanato/internato como os outros. Como todos os internos, as crianças são preparadas para ser doadoras de órgãos - Carey Mulligan será a cuidadora do trio. Naturalmente que, sendo retalhados, eles vão se acabando. Sonham com um mito de Hailsham. O de que dois integrantes do quadro da escola, tendo provado que se amam de verdade, poderão ser liberados para levar uma existência "normal", seja lá o que isso signifique. Triste como é - (pós) apocalíptico como é -, o filme pretende ser, basicamente, uma história de amor, nas quais as memórias dos trio vão se superpondo, e completando, para compor uma só lembrança.

Garantia falsa. Resíduos do Dia também era uma história de amor. A governanta Emma Thompson amava o mordomo Anthony Hopkins, mas ele não se dava conta disso - e desperdiçava sua vida -, servindo ao aristocrata James Fox. Embora não doasse nenhum órgão, sua vida se estiolava, exatamente como a desse trio, na servidão humana. Carey ama Garfield, mas ele prefere Keira - ou, pelo menos, assim parece. Keira, na verdade, atropela Carey, coloca-se entre os dois, movida por essa mesma fantasia - a de que o amor, provado, terá como recompensa a garantia de vida.

Carey, Keira e Garfield são bons atores. Elas já foram indicadas para o Oscar - por Educação, de Lone Scherfig, e Desejo e Reparação, de Joe Wright -, ele faz o brasileiro Eduardo Saverin de A Rede Social, de David Fincher. Aqui, têm todo o seu talento colocado à prova, porque criam personagens destituídos de vitalidade, como se estivessem, e estão mesmo, morrendo. O mais curioso é que esse filme tão particular leva a assinatura de Mark Romanek. É um diretor de vídeos dos EUA. A MTV alemã não deixa por menos e considera Can"t Stop, do Red Hot Chili Peppers, que Romanek dirigiu, o segundo melhor vídeo musical de todos os tempos (após Bad, de Michael Jackson). A linguagem MTV é essencialmente dinâmica. Muito corte, montagem, movimentação de câmera para projetar o espectador na vertigem do ritmo, da dança. Não Me Abandone Jamais é o oposto.

Câmera parada, ou quase. Cenas longas, poucos cortes. Romanek ajusta sua linguagem às exigências dramáticas do livro de Ishiguro. Mais do que o relato de vidas perdidas, Não Me Abandone Jamais oferece o relato de um tempo que nunca é reencontrado. Ilusões perdidas, mitos desfeitos. Ninguém soluça nem perde o controle. A vida simplesmente esvai-se. Dilui-se. Pode-se admirar a qualidade da interpretação, o rigor estético. Mas é programa para poucos.

NÃO ME ABANDONE JAMAIS

Nome original: Never Let Me Go. Gênero: Drama (EUA e Reino Unido/2010, 103 min.).

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