Vestido de Noiva, a sinistra festa nupcial de Gabriel Villela

Aclamado texto de Nelson Rodrigues inspira montagem onírica e musical do diretor mineiro

Ubiratan Brasil, O Estado de s. Paulo

06 de maio de 2009 | 09h11

Buzina de automóvel. Rumor de derrapagem violenta. Som de vidraças partidas. Silêncio. Assistência. Silêncio - o já clássico começo da peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, inspira os primeiros segundos da montagem dirigida por Gabriel Villela, que estreia sexta-feira, no Teatro Vivo. Como um anjo, asas nas costas, ou uma andorinha, Leandra Leal corre em círculos, rodeando os demais personagens. Ela vive Alaíde, jovem que acaba de ser atropelada e, à beira da morte, inicia um processo delirante, alternando realidade, memória e alucinação, estágios que transformaram o texto de Nelson Rodrigues em marco da dramaturgia brasileira, ao ser encenado pela primeira vez em 1943.

 

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"Os três planos estão presentes, mas não divididos em níveis, como fez Ziembinski em 1943", conta Villela. "O espectador é conduzido para cada um deles por meio de outros recursos, como a iluminação e a interpretação." Ele também fundiu os dois primeiros atos, separando-os do último por um intervalo de 15 minutos. "O primeiro e o segundo atos da peça acontecem dentro da alucinação - a realidade aparece em alguns momentos por meio de sons do acidente, batimentos cardíacos da personagem."

Vestido de Noiva foi o primeiro grande texto essencialmente freudiano de Nelson Rodrigues, pois as cenas de alucinação e memória são frutos, na verdade, do subconsciente de Alaíde, mulher que vive um triângulo amoroso com o marido Pedro (Marcello Antony) e a irmã Lúcia (Vera Zimmermann). Depois de discutir com Lúcia, Alaíde sai de casa e é atropelada. Desacordada, ela revive momentos de sua vida como o dia de seu casamento, o assassinato que supostamente teria cometido contra o marido e os planos de Pedro e Lúcia de matá-la.

Tais lembranças e alucinações são conduzidas por Madame Clessi (Luciana Carnieli), prostituta considerada o ideal de mulher por Alaíde, cuja mente é povoada ainda pelas figuras da mãe, dos médicos, dos jornalistas que cobrem o acidente, das prostitutas do bordel de Clessi - personagens vividos por outros seis atores do elenco.

A célebre montagem de Ziembinski para Vestido de Noiva apontou novos caminhos para o teatro brasileiro. Expôs também o talento de Nelson Rodrigues, que cutucava o inconsciente humano. Afinal, o sexo para seus personagens encobria vícios e taras que martelavam o moralismo vigente. "Enquanto o teatro grego partia da virtude, os dramas de Nelson Rodrigues partiam da mesquinharia, da sordidez humana", conta Villela, que se baseou no estudo de um de seus mestres, o crítico Sábado Magaldi, para definir o espírito do espetáculo.

Como já trabalhou com outras duas obras do dramaturgo (A Falecida e Valsa nº 6), o diretor sentiu-se familiarizado com o melodrama - não o tradicional, mas aquele observado por Nelson Rodrigues, que reflete um temperamento típico carioca dos anos 1940, baseado em extravasamentos emocionais e exibições exageradas de sentimentos. O melodrama, sob esse ponto de vista, confunde-se com naturalismo.

E, por não repetir a proposta cênica utilizada por Ziembinski, Gabriel Villela decidiu privilegiar o trabalho do ator e o texto. Assim, ensaiou durante três meses com o elenco, estabelecendo um processo criativo em constante evolução. "Foi um período necessário para, no meu caso, entender perfeitamente as intenções da Alaíde", conta Leandra Leal, cujas feições de menina se adaptam perfeitamente à complexa personagem, mulher que sofre por ter traído a própria irmã. "É rica essa questão de luta interna dos desejos versus o social e a moral", diz a atriz.

O desenvolvimento foi acompanhado de perto por Marcello Antony, que transformou Pedro em um homem sarcástico. "Um detalhe importante da montagem é que todos os personagens são fruto das alucinações da Alaíde - afinal, a peça inteira se passa depois de seu atropelamento", conta o ator. "Daí o Pedro ser um homem debochado."

A intenção é a mesma do diretor, que buscou uma leve tonalidade circense para o espetáculo - Antony, aliás, é visto por ele como um intérprete tipicamente felliniano. Com isso, Villela retoma uma prática que tornou clássico seu trabalho, que é filtrar a cultura erudita sob o ponto de vista popular. Conhecido pelo estilo barroco, em que todos os detalhes da encenação (dos figurinos aos gestos dos atores) parecem cuidadosamente bordados, Villela transforma sua 22.ª direção teatral em um trabalho absorvente.

A sonoridade é um dos destaques - basta observar a forma de falar de Luciana Carnieli no papel de Madame Clessi. Prostituta do início do século passado, rodeada de homens poderosos, ela profere as palavras com uma dicção típica dos antigos atores de rádio, em que todas as sílabas são devidamente pronunciadas. "Gabriel buscou inspiração também em cantores famosos, como Vicente Celestino, que carregavam a voz de sentimentos", conta a atriz.

Também Vera Zimmermann utiliza a voz para mostrar a mudança de Lúcia: "Ela se transforma aos poucos e, como se trata da mulher com véu, as palavras são sua principal forma de expressão."

Em cena, aliás, os atores cantam e dançam ao som da trilha marcada por ritmos como tango e bolero. Em certos momentos, a música começa a se fracionar, acompanhando o acidente da protagonista. "Usamos o efeito de um disco pulando para fazer referência à memória em decadência", conta Daniel Maia, que assina a trilha sonora.

Serviço

Vestido de Noiva. 100 min. 14 anos. Teatro Vivo (290 lug.). Av. Chucri Zaidan, 860, 7420-1520. 6.ª e sáb., 21h30; dom., 19h. R$ 60 e R$ 70 (sáb.). Até 5/7. Estreia sexta

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