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Vertigem

Hoje faz 60 anos que Um Corpo Que Cai (Vertigo) foi lançado no Brasil

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2018 | 02h00

Hoje faz 60 anos que Um Corpo Que Cai (Vertigo) foi lançado no Brasil, um mês e meio depois de sua première em Los Angeles. Os brasileiros viram o filme antes do resto do mundo e nossos críticos retribuíram a deferência recepcionando-o com um entusiasmo ausente das primeiras reações da crítica americana. 

O máximo que a Academia de Hollywood lhe concedeu foram duas indicações menores: direção de arte e som. Premiações, só as que Hitchcock e James Stewart receberiam no Festival de San Sebastian, no segundo semestre de 1958. Aos poucos, os ventos mudaram de direção. Até que na última enquete decenal da revista Sight & Sound, com críticos dos cinco continentes, Vertigo desbancou Cidadão Kane do topo da lista dos “melhores filmes de todos os tempos”.

Pouco menos de um ano antes de sua estreia aqui, Moniz Vianna, o oracular crítico do Correio da Manhã, encontrara-se com Hitchcock no set de filmagem de Vertigo, na Paramount. Babei de inveja ao ler o registro no jornal. Não vi Um Corpo Que Cai (boa tradução, diga-se) em sua primeira semana de exibição no Rio. Por quê?, não lembro. Acabaria descontando o retardo pela vida afora. 

De repente, o filme sumiu do mercado. Brigas por direitos autorais. Em 1966 uma solitária cópia foi encontrada no depósito da Paramount do Rio, e na véspera de sua destruição (praxe após esgotado o prazo de cinco anos do certificado de Censura), organizou-se, no cinema Paissandu, uma solene e dominical despedida da obra maestra de Hitchcock. Não fazíamos ideia de quando a veríamos novamente. 

Entre aquele velório e o lançamento da cópia restaurada do filme 30 anos depois, “inventei” o Tour Vertigo. Setembro de 1971. Levado por Ana Lúcia e João Saboia a um giro de carro por São Francisco, ao avistar o Palácio da Legião de Honra, no Lincoln Park, pedi para tirar uma foto sentado nas escadas de acesso ao museu. “Era aqui que Kim Novak vinha ver o retrato de Carlota Valdez”, comentei com o casal amigo. A primeira locação de Vertigo me caíra no colo. As demais não seriam tão fáceis de localizar. 

Anos depois, agências de turismo mapearam as locações, com ajuda de cinéfilos e da Paramount, e montaram seus próprios passeios pelos locais por onde Scottie (o obsessivo e órfico detetive encarnado por Stewart) seguiu, de carro e a pé, Madeleine Elster, a primeira personagem de Kim Novak. 

De muita coisa só vestígios encontrei. E apenas 14 anos então me separavam das filmagens. Prédios haviam sido demolidos (o vitoriano Hotel McKittrick, na Gough Street, que Madeleine, “possuída” pelo fantasma de Carlota Valdez, costuma visitar, desaparecera em 1959), outros nunca existiram (a livraria Argosy, por exemplo) ou haviam mudado de nome (o Hotel York, na Sutter Street, onde Scottie encontra Judy Barton, a segunda personagem de Kim Novak, já se chamava Empire em 1971, e há tempos foi espertamente rebatizado de Vertigo). 

O magazine Ransohoff’s ainda estava no 259 da Post Street, mas fecharia cinco anos depois; e agora abriga uma loja de malas Rimowa. A loja de flores Podestà Baldocchi (na Grant Avenue) parece que permanece no mesmo espaço, dando fundos para a Claude Lane, beco entre as ruas Sutter e Post.

A livraria Argosy foi inteiramente feita no estúdio, assim como quase todos os interiores, inclusive o do restaurante Ernie’s (Montgomery Street), fechado em 1996, meticulosamente recriado sob a supervisão do próprio Hitchcock, fiel freguês de sua refinada cozinha francesa. O majestoso prédio (Brocklebank Apartments), de cujo estacionamento Madeleine sai todos os dias com o seu Jaguar, continua de pé na Mason Street, no alto de Nob Hill. 

O prédio baixinho em que Scottie mora (900 Lombard Street, esquina com a Jones) foi relativamente fácil de localizar. Já fora habitado por uma francesa que não tinha noção da relíquia que alugara e depois por outra senhora que, também saturada do assédio de turistas abelhudos, mudou de endereço. Construíram uma casa no lugar. 

A Missão Dolores, onde, no filme (e só no filme), fica o túmulo de Carlota, é a mais velha construção da cidade e, por isso mesmo, um dos pontos turísticos mais procurados de São Francisco. Já encontrar a outra missão, de cujo campanário caem os corpos de Madeleine e Judy, exigiu um bocado de ginástica e gasolina, por culpa, justamente, do seu campanário. 

Tinha ideia de que a única missão espanhola dotada de campanário, naquela região, era a de Santa Barbara. Fui até lá, fiz algumas fotos, e dei o tour por encerrado. Só na década seguinte descobri ser outra a missão usada no filme, a de San Juan Bautista, a 140 km de São Francisco, que afinal visitei em 1993. Ainda sem campanário. A mostrada na tela é um desenho, um truque ou adendo cenográfico, bolado pelo cineasta para substituir a torre original da missão, destruída por um raio em 1940. 

A missão é um barato, embora não tão charmosa quanto a de San Luis Obispo. Descobri recentemente que foi toda restaurada e ficou uma graça. Há oito anos ganhou um campanário igual ao do passado (e do filme), construído a pedido da filha do produtor Herbert Coleman. Primeiro a arte imitou a vida, depois a vida imitou a arte. Mais um caso de ressurreição ligado a Vertigo.

Ah, sim, o retrato de Carlota. Nunca existiu. Na Galeria 6 do Palácio da Legião de Honra encontrei o banco em que Madeleine se sentava para apreciá-lo mas as paredes tomadas por pinturas francesas e italianas do século 17. O quadro que vemos no filme foi pintado por John Ferren, o mesmo que dois anos antes pincelara os do pintor encarnado por John Forsythe em O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry)

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