Versos que perturbam

POESIA[br]Direção: [BRASIL, 2009]Lee Chang-dong. Com Jeong-hee Yoon, Hira Kim, Da-wit Lee.[br]Estreia prevista para sexta-feira.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Poesia, de Lee-Chang Dong, era o filme favorito do crítico francês Michel Ciment, que fez parte do júri da Mostra de Cinema de São Paulo no ano passado. Não ganhou. Mas a dica é boa. Como autêntico representante do melhor cinema da Coreia, Poesia, como sugere seu título, equilibra-se entre o registro da ternura e o da dureza mais crua.

A protagonista é Mija (Jeong-hee Yoon) que vive com seu neto e é uma senhora alegre e sensível.

Veste-se de forma colorida e, para assim dizer, preencher sua existência, resolve tomar aulas de poesia num centro cultural da vizinhança. Nessa situação, é estimulada a escrever pela primeira vez na vida um poema. Escrever, de certa forma, significa abrir os olhos até então fechados e ver o mundo como se fosse pela primeira vez.

Esse prólogo tende a enganar o espectador, que prevê desenvolvimento ameno e talvez desfecho edificante. Quem conhece o cinema coreano, com sua tendência para expor o lado mais árduo da existência, já fica com o pé atrás. E não se decepciona. Porque Mija logo descobre um outro tipo de poesia, e das mais ásperas, ao se defrontar com outro ser humano, este em situação bem dramática.

Basta dizer que Poesia explora, com rigor, uma temática das mais difíceis, mesmo em nosso tempo tido como permissível, mas que no fundo é moralista. O cinema tolera muito bem o amor entre jovens e belos. Parece-lhe "estético". "Poético", no falso sentido. Que dizer, bonito e desejável. Já quando os parceiros fazem parte da assim chamada (e de maneira hipócrita) "melhor idade", a sensação é outra. De constrangimento. Como se os nossos velhinhos devessem se conformar com a extinção de seu impulso vital de modo a não causar desconforto aos jovens, que podem ver neles o que um dia se tornarão, caso não morram ainda moços. Nessa situação, Lee Chang-dong vai em busca da sua ousada poesia.

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