Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Versos que hipnotizam

Adélia Prado conversa hoje com os leitores sobre seu livro A Duração do Dia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

Onze anos se passaram até a escritora Adélia Prado publicar seu novo livro de poesias, A Duração do Dia (Record). Um trabalho de criação e reformulação. "Tem poemas muito novos e outros que foram extraídos de material antigo, que em seu tempo não estavam resolvidos como poema, mas agora encontraram a sua forma", disse ela ao Estado, em agosto passado, quando a obra chegou às livrarias. Adélia vive em Divinópolis, Minas Gerais, mas vem deixando o sossego do lar para lançar o livro em outras cidades. É o que acontece hoje, a partir das 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon.

Adélia é um fenômeno de popularidade. Em 2007, durante a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, ela arrebatou uma pequena multidão, emocionada com suas palavras verdadeiras. Capitaneou também uma das mais concorridas sessões de autógrafo da história da Flip, que se estendeu por horas.

No ano passado, no Fórum das Letras de Ouro Preto, apenas Adélia conseguiu lotar o salão reservado aos debates. Com seu inconfundível e adorável sotaque mineiro, Adélia hipnotiza os admiradores ao se revelar uma escritora consciente do papel oracular da poesia e do caráter epifânico da arte. "Van Gogh pintando objetos velhos é pura transcendência", comentou, em Ouro Preto. "Para mim, a pintura é a arte que mais se aproxima da poesia."

São frases desse quilate que atingem seus fãs, que incluem nomes renomados como a presidente Dilma Rousseff. É o que deverá acontecer na noite de hoje, quando Adélia primeiro conversar com os leitores para depois, às 20h30, iniciar a sessão de autógrafos. Como o auditório da Livraria Cultura tem capacidade para 125 pessoas, convém não se atrasar nem demorar.

"Não existe transcendência sem passar pela cozinha e o banheiro, por isso que a literatura é suja, incompleta, com excrementos", continuou, ainda em Ouro Preto. "Sem isso, é impossível escrever sobre a condição humana." É essa mistura da religiosidade com o cotidiano que arrebata os leitores. Afinal, a realidade exerce influência decisiva em sua poesia. Em A Duração do Dia, por exemplo, há um poema, O Ditador na Prisão, em que Adélia trata do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein. "A poesia não é nem nasce necessariamente do bem-estar", afirma. "Ela vem apesar e por causa de tudo. Por isso nos consola tanto. A tristeza num poema é alegria, ainda que lacrimosa."

Apesar da variedade de temas (há até uma poesia intitulada Harry Potter, em que ela relembra brincadeiras com galinhas da época de criança), Adélia acredita revelar-se por meio dos versos. "Penso que um autor se escreve", observa. "Seu texto é ele mesmo, nem ficção científica escapa. Portanto, se faz uma coisa só, vista a luzes e profundidades diferentes. Do meu limite não há como sair."

A Duração do Dia já iniciou um carreira consagradora, faturando premiações, como o Prêmio Literário da Fundação da Biblioteca Nacional e a estatueta da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), ambos na categoria poesia.

POEMA

"Me escondo

no porão

para melhor aproveitar o dia

e seu plantel de cigarras.

Entrei aqui...

... pra rezar,

agradecer a Deus este conforto gigante.

Meu corpo velho descansa regalado,

tenho sono e posso dormir,

tendo comido e bebido sem pagar.

O dia lá fora é quente,

a água na bilha é fresca,

acredito que sugestiono elétrons.

Eu só quero saber do microcosmo,

o de tanta realidade que nem há.

Na partícula visível da poeira

em onda invisível dança a luz.

Ao cheiro de café minhas narinas vibram,

alguém vai me chamar.

Responderei amorosa,

refeita de sono bom.

Fora que alguém me ama,

eu nada sei de mim.

(Tão Bom Aqui)

 

 

A DURAÇÃO DO DIA

Autor: Adélia Prado

Editora: Record (112 páginas, R$ 27,90)

Livraria Cultura

Shopping Bourbon (Rua Turiaçu, 2.100). 19h30.

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