Versos delirantes de Guenádi Gor foram escritos em circunstâncias trágicas

Obra vigorosa nos obriga a repensar a condição humana

Boris Schnaiderman,

14 de setembro de 2012 | 19h00

Por mais que se tenha escrito sobre o verdadeiro milagre que foi o surgimento, a partir de 1985, na Rússia, de toda uma literatura que deixara de circular, novos textos foram aparecendo e nunca é demais insistir em sua importância. Um dos casos mais impressionantes é certamente o de Guenádi Gor (1907-1981) e de seu livro de poesia Bloqueio, do qual tomei conhecimento graças a um xerox de sua tradução alemã por Peter Urban, numa edição vienense bilíngue, cuja cópia me foi presenteada por meu amigo André Valias, e da qual só pude aproveitar o texto russo, embora tenha lido referências entusiasmadas ao trabalho do tradutor.

Gor era muito conhecido na Rússia como prosador, graças a uma extensa obra de ficcionista. Nascido numa família judia, seus pais eram, no regime czarista, degredados políticos na Sibéria, onde passou a infância.

Residindo depois em Leningrado, não poderia deixar de sofrer o impacto da literatura dos oberiúti, o grupo de escritores daquela cidade que se fixavam, nos anos 20, nos absurdos do cotidiano soviético e sofreram as consequências dessa atuação. Pode-se até dizer que seu livro de poesia é o de um membro retardatário dessa corrente.

Os contemporâneos recordam aquele homem de ar assustadiço, sempre escondendo um caderno com a sua poesia escrita durante o cerco de Leningrado pelos alemães e aliados finlandeses. Realmente, havia motivo para tanta cautela - e o livro só pôde vir a público muito anos depois da glasnot de Gorbatchóv.

O assédio de Leningrado, que durou 872 dias, teve lances dramáticos na vida de seus habitantes. A escassez de comida chegou então a tais extremos que até se registraram casos de canibalismo. Ora, em tais circunstâncias, todas as relações humanas ficam subvertidas. Como encarar, por exemplo, a relação homem/mulher naquela situação? E o convívio entre pais e filhos? Ou entre aluno e professor?

Levando-se em conta que, numa população de 2 milhões, houve entre 650 mil e 1 milhão de mortos, as chances de sobreviver eram realmente escassas. Percebe-se em seus versos muito carinho pela mulher. Mas, embora chegue a escrever "Vem o carteiro. Telegrama de minha mulher: ‘Te espero’", em outras passagens isto dá lugar a uma situação completamente estapafúrdia. Veja-se, por exemplo, o poema O Rio Tônia, de julho de 1942: "Pernas brancas no capinzal./ Uma árvore grande, de saia./ Vai me abraçar, me erguer c’os ramos./ É a jovem Mânia, a bétula,/ Que me tenta e me levará consigo./ Mas carícias de moça não são do meu jeito,/ E a árvore-jovem não me cabe por lei./ Esfaqueio minha mulher. E o coração vai se afogar./ O rio há de chorar e gemer,/ O rio Tônia".

Em outras visões delirantes, é sua mulher que se entrega ao primeiro recém-chegado à sua casa. Ou então há um noivo que se senta à mesa e devora devagarinho a noiva.

Tudo isso e mais visões no gênero são narrados em versos bem metrificados e sonoros. Há neles uma profusão de imagens trazidas tanto pela poesia russa como pela literatura universal, com fixação sobretudo no Dom Quixote. O contraste entre o horror do que é narrado e aquela visada estética se torna alucinante. O título do livro se deve aos organizadores da edição e se sente algo estranho na diferença que há entre a retomada desse texto e o período em que foi escrito.

Ele de fato consagra um grande poeta na pessoa daquele escritor que parecia apenas partilhar a sorte dos seus companheiros de geração. Depois de tantos anos, temos de considerá-lo no conjunto dos oberiúti. Se a figura mais importante do grupo, Daniil Kharms, deixou poemas bem interessantes (traduzi um deles em colaboração com Haroldo de Campos e o incluí na última edição da antologia Poesia Russa Moderna, da Perspectiva, 2001), outros poetas também sofreram o impacto dessa corrente. Foi o caso do extraordinário Nicolai Zabolótzki, incluído na mesma coletânea. No entanto, Guenádi Gor traz a este conjunto o toque inconfundível de uma obra vigorosa surgida em circunstâncias trágicas e que nos obriga a repensar a condição humana.

VANGUARDA

Tetriakóv tinha 3 anos quando morreu o autor Nikolai Leskov (1831-1895), visto por Tolstói como um futurista. Mestre da narração, Górki o considerava o mais autêntico entre os escritores russos. Dele, a Editora 34 lança dois livros de contos, Homens Interessantes e Outras Histórias (tradução de Noé Polli, 328 págs., R$ 49) e A Fraude e Outras Histórias (tradução de Denise Sales, 224 págs., R$ 39).

 
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