Versos de dois mundos

Coletânea traz o melhor do alemão Heinrich Heine, um autor dividido entre culturas

Márcio Seligmann-Silva, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Com o lançamento de Heine, Hein?: Poeta dos Contrários, precisamos reintroduzir o conceito de urgência no campo da literatura - vale dizer, alterar nossas prioridades. Como escreve Augusto de Campos em sua apresentação na orelha do volume, essa publicação é um dos maiores acontecimentos editoriais no Brasil dos últimos anos. O responsável é André Vallias, que não apenas fez uma seleção de 120 poemas, retirados dos quatro livros poéticos de Heine (1797-1856), sendo alguns do seu espólio, como também incluiu em sua coletânea as deliciosas Cartas de Helgoland (que marcaram muito o último Freud) e outros excertos em prosa.

O resultado é um impressionante e único panorama, nessa escala, da obra de Heine em português. A edição, que contém ainda os poemas em alemão, vem reforçada por um precioso e bem-humorado texto de introdução e por um adendo alentado sobre Heine e sua obra. A tradução é um capítulo à parte. Vallias realizou um trabalho muito cuidadoso de tentativa de resgate daquele que é um dos maiores poetas de língua alemã. Por conta de seu estilo de tradução ao mesmo tempo fiel, que se esforça por levar em conta a sonoridade da poesia, e também marcado por uma saudável ironia, eu arriscaria dizer que Vallias se aproxima do modo do poeta, crítico e tradutor Nelson Ascher encarar essa ponte entre as línguas.

Anatol Rosenfeld descrevia Heine como um déraciné, nascido em uma casa já sem tradição, num universo de judeus semiemancipados, que o marcaria como um marginal, alguém condenado a viver entre dois mundos. Um estranho. Heine teria um anseio de integração, uma sede de amizade, ao lado do aguilhão e da necessidade do deslocamento. Nesses poemas e na prosa aqui reunidos, vislumbramos também um humor mordaz e cortante, destilado a partir de sua situação de estrangeiro em todas as pátrias, ou seja, tanto na Paris, onde viveu boa parte de sua vida, como na cultura alemã, da qual se distanciou, mas sem nunca abandonar o seu idioma. De fato, Heine foi um poeta dos contrários e, a partir de sua posição singular na sociedade, pôde desmascarar o lado filistino de sua época.

Ele que foi, antes do francês Charles Baudelaire (1821-1867), um dos inventores da modernidade, soube como poucos expressar e mesmo inventar a nossa intimidade. Seu poema De Manhãzinha é uma perfeita antecipação de um dos melhores e mais conhecidos poemas de Baudelaire, A Uma Passante.

Heine precisa ser mais lido entre nós. É uma questão, ousaria afirmar, de primeira necessidade.

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA É PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA DA UNICAMP E AUTOR, ENTRE OUTROS TRABALHOS, DE O LOCAL DA DIFERENÇA (EDITORA 34)

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