VERSOS BUCANEIROS

O produtor Hal Willner mostra nova releitura de canções piratas - e com Tom Waits

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h15

O produtor Hal Willner é especialista em releituras inusitadas. Desde os anos 80, sua discografia repensa o gênero com tributos de alto nível a nomes tão díspares quanto Thelonious Monk e Walt Disney. Basta ouvir sua produção do tema dos sete anões, cantado por Tom Waits, no disco Stay Awake: Reinterpretations of the Music of Walt Disney (infelizmente fora de catálogo, mas com faixas disponíveis no YouTube) para compreender o patamar artístico em que transita. Na faixa em questão, Waits transforma Heigh Ho em um hino bêbado e sombrio à labuta mineradora; canta o clássico infantil como se integrasse uma gangue de presidiários acorrentados a uma estrada de ferro. No mesmo disco, Sun Ra interpreta Pink Elephants on Parade, de Dumbo, com um balanço doidivanas - perfeito acompanhamento para a lisérgica cena do filme. Por fim, uma intimista Sinead O' Connor dá a cereja ao tributo em versão folk, voz e violão de Someday My Prince Will Come, também de Branca de Neve e os Sete Anões.

Combinações inesperadas estão no cerne da discografia de Willner. Quando não produzem algo mirabolante, valem simplesmente pela curiosidade e audácia com que são concebidas. Weird Nightmare: Meditations on Charles Mingus, traz interpretação de Keith Richards para o blues Oh Lord Don't Let Them Drop That Atomic Bomb on Me, e uma leitura sem melodia ou ritmo de Gunslinging Birds, feita pelo rapper Chuck D. Um grupo de feras, como Branford Marsalis e Carla Bley tocam em seu tributo a Nino Rota; Peter Frampton participa de sua homenagem a Thelonious Monk.

Outros discos - com a música de Kurt Weill ou Harold Arlen - também retratam o talento de Willner para escalar combinações de repertório e intérpretes efervescentes, além de seus trabalhos com as poesias de William Burroughs e Alan Ginsberg.

O último dessa linhagem é Son of Rogue's Gallery, uma coleção de cantigas de piratas interpretada por músicos que vão de Patti Smith a Tom Waits. O disco chega ao mercado por meio da gravadora ANTI. Trata-se de uma continuação de Rogue's Gallery, de 2006, disco que surgiu de uma ideia de Johnny Depp e Gore Verbinsky, diretor de Piratas do Caribe, na época em que o blockbuster estava em alta. Embora ambos os discos sejam frutos de uma empreitada cinematográfica maximalista, a escalação não abre mão do elenco cult e variado de sempre.

No primeiro Rogue's Gallery os músicos foram de Bono, Bryan Ferry e Sting ao guitarrista de jazz Bill Frisell e o ator John C. Reilly. O novo traz Waits e Shane Macgowan, dos Pogues, entre outros, com um line-up menos galáctico mas igualmente interessante. O disco é composto por 36 faixas, uma quantidade anormal, mas não entediante, se considerarmos a média de dois minutos por faixa. No repertório, pincelado através de uma extensa pesquisa feita por Willner, obscenas cantigas de trabalho, refrões de taverna, e o pugilismo lírico do métier.

Macgowan abre Son of Rogue's com um rock n' roll entorpecido, sobre um fundo de tilintantes canecas de cerveja. Beth Orton traz intimismo jazzístico a River Come Down. Mas Son of Rogue's Gallery só engrena quando Tom Waits encara Shenandoah, balada que não estaria fora de lugar em um de seus discos. Waits, bandido nato, é o pirata musical mais apto à tarefa de recriar o cancioneiro de outrora, e seu rugido etílico torna Shenandoah inimaginável na voz de qualquer outro. Iggy Pop em papel de bufão, interpreta Asshole Rules the Navy, uma canção sobre necessidades sexuais no mundo da pirataria, acompanhado por um acordeão. Em seguida, Macy Gray, com voz de cafetina, ataca uma faixa sobre infidelidade em versão de reggae. O próximo destaque é The Mermaid, interpretada por Patti Smith, em batidão de girl group. Johnny Depp, cuja habilidade guitarrística facilmente lhe garantiria uma carreira como músico indie, a acompanha.

Cada uma das 36 faixas de Son of Rogue's Gallery parece ter sido eximiamente calculada por Willner para surpreender e agradar ao ouvido em busca de apuração estética. É sutilmente bela, por exemplo, a participação do grupo indie Broken Social Scene, que interpreta a canção Wild Goose, cujo arranjo etéreo de acordes e corais se mescla como fumaça. Trata-se da mais bela faixa do disco, cantada sem as inflexões cômicas dadas ao cancioneiro por outros artistas.

É claro que seriedade não é o foco de Willner, mas as sutilezas do Broken Social Scene intuitivamente agradam mais que as outras interpretações. Dr. John surpreende ao deixar o piano de lado e adotar uma voz de narrador para contar histórias de pirataria ao som de bongôs. Michael Gira, conhecido por seu metal apocalíptico como líder do histórico grupo Swans, dá um tratamento brincalhão, acompanhado de fanfarra, a Whiskey Johnny.

Mas o grande momento do disco fica por conta do lendário roqueiro Todd Rundgren, que canta Rolling Down to Old Maui sobre uma batida de trance, com direito a autotune e crescendos eletrônicos. O efeito é hilário, como se o Swedish House Mafia voltasse no tempo, e munidos de acordeões, em vez de sintetizadores, comandassem uma rave pirata no Caribe - sacada brilhante do excêntrico Willner.

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