VERSÕES DE LINCOLN

Filme de Spielberg se soma ao de diretores como John Ford

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE , WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2013 | 02h07

As esperadas premiações de Lincoln dão margem ao resgate de clássicos do cinema sobre o maior ídolo da democracia americana. Abraham Lincoln, o 16.º presidente dos Estados Unidos, foi tratado em mais de 7 mil livros, alguns dos quais inspiradores de consagrados roteiristas e diretores de cinema. Sua exposição nas telas pelas mãos de John Ford, John Cromwell e D. W. Griffith amplia a trajetória do personagem histórico além da visão de Steven Spielberg.

Cada uma dessas versões para o cinema trata de um período da vida do ex-presidente. A interpretação de Daniel Day-Lewis no papel central, já considerada memorável, não concorre com as anteriores, mas as complementa. Difícil dizer quem se saiu melhor na pele de Abe Lincoln.

The Young Mr. Lincoln, dirigido por John Ford em 1939, trouxe Henry Fonda como o autodidata eleito deputado estadual. Ele chega em 1836 a Springfield, capital de Illinois, trajado com casaca preta e cartola e montado em uma mula. O filme se detém nos seus primeiros anos na cidade, antes de seus voos políticos mais ambiciosos e na sua atuação como um inexperiente advogado de defesa de dois jovens acusados de assassinato. O Lincoln de Fonda reforça o mito do herói humilde, que convence pela sinceridade e sagacidade. "Posso não saber muito sobre Direito, mas sei o que é certo e o que é errado", diz ele, ao enfrentar um grupo ávido por linchar os jovens acusados de cometer o crime.

O perfil humilde, camarada e bom contador de história impresso em The Young Mr. Lincoln coincide com o de suas biografias e com o que o espectador americano ainda hoje deseja ver. Essa leitura do personagem é reforçada na interpretação de Day-Lewis de Lincoln em seus últimos e tensos quatro meses de vida, na versão de Spielberg. Mas está presente também na atuação de Raymond Massey em Abe Lincoln in Illinois, de 1940, dirigido por John Cromwell.

O filme cobre um período mais amplo, desde a partida de Lincoln de New Salem, em Illinois, até o seu embarque no trem que o levou de Springfield a Washington, onde assumiu a Casa Branca. O embate sobre a abolição da escravatura e a ameaça de eclosão da Guerra Civil são os temas centrais do drama. As falas premonitórias sobre o destino grandioso do personagem entediam, mas seu discurso sobre a necessidade de retomada dos valores democráticos para o combate à tirania poderiam ser atuais tanto no filme como na vida dos primeiros espectadores, no primeiro ano da 2.ª Guerra.

Interpretação. O diretor e produtor D.W. Griffith, que regera o equivocado The Birth of a Nation em 1915, dedicou-se a Abraham Lincoln 15 anos depois. O filme cobre toda a vida do personagem - de seu nascimento no Kentucky, em 1809, a seu assassinato no Ford Theater, em Washington, em 1865. Começa com cenas em um navio negreiro, de onde os doentes são lançados ao mar. Mas o tema da escravidão é abandonado - e os raros personagens negros do filme são interpretados por brancos maquiados.

Em memorável interpretação, o ator Walter Huston faz o papel de um governante cujo objetivo único é preservar a União, ameaçada pela secessão dos Estados do Sul. Seu Lincoln é mais desafiador e menos humilde do que nas versões posteriores. Abraham Lincoln não foi indicado ao Oscar em nenhuma das categorias. Mas tornou-se uma referência para as produções que se seguiram. Suas cenas do presidente acompanhando a chegada dos telegramas do front possivelmente inspiraram Spielberg, que explorou a sensibilidade desse mesmo momento e conferiu um caráter mais terna na conversa de Lincoln com os jovens telegrafistas.

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