Versão para o cinema de Truffaut beira o desastre

Em 1966, após uma pausa de dois anos - Um Só Pecado é de 1964 -, François Truffaut assina seu primeiro filme em língua inglesa, para um consórcio anglo-americano. É um momento particular. A nouvelle vague estabeleceu-o como grande diretor - e ele foi premiado em Cannes por Os Incompreendidos/Les 400 Coups, em 1959. Jean-Luc Godard revoluciona a linguagem e a política do cinema e Jacques Démy venceu em Cannes com Os Guarda-Chuvas do Amor.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h13

A nova onda dita as cartas e Truffaut se atraca com Ray Bradbury, um livro mítico - Fahrenheit 451. É a história de Montag, que se passa num futuro incerto, quando bombeiros não apagam incêndios, mas põem fogo em livros. A metáfora de Bradbury é clara e em Jules e Jim/Uma Mulher para Dois, de 1962, o próprio Truffaut já inserira imagens dos nazistas queimando livros, certamente para mostrar que a barbárie desestabiliza muito mais a cultura que um triângulo amoroso como o formado pelos personagens de Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre.

Mais do que a adaptação de David Goodis - Atirem no Pianista, com Charles Aznavour -, o Bradbury de Truffaut é o primeiro grande tributo do diretor a um de seus mestres, Alfred Hitchcock. Ele chegou a convocar para a trilha um hitchcockiano de carteirinha, Bernard Herrmann. O tema lhe era caro - a educação ao mesmo tempo literária e sentimental de um homem (Oskar Werner) dividido entre duas mulheres. Interpretadas pela mesma atriz, Julie Christie, são a esposa e uma mulher que vive clandestina, integrando o grupo que se dedica a decorar os livros, mantendo viva a cultura.

Os críticos até hoje se perguntam como um tema "truffautiano" foi tão mal servido por Truffaut? Jean Tulard não exagera ao dizer, no Dicionário de Cinema, que ele, com seus gostos de crítico, não sinalizava para o diretor acadêmico em que se transformou. Existem belas cenas em Fahrenheit, mas qualquer diretor B de Hollywood teria feito melhor. A inadequação é flagrante. A ficção científica de Truffaut beira o desastre.

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